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novembro 14, 2015
abril 03, 2014
Mário Viegas diz Jorge de Sena "*Carta a meus filhos..." .
Cada
vez mais encontro pessoas em cafés, livrarias ou jardins públicos a
pôr em causa o estado a que isto chegou . Já não precisamos de convocar
gente para o Rossio. O país é uma Praça aonde muitos desabafam. Depois
de um sorriso cúmplice na caixa do supermercado – que este povo não
perde nunca a veia provocatória – Não obrigada, não preciso de um Audi –
e assim evoluem as conversas, os desabafos - Que a gente não aguenta.
Ainda ontem assisti a uma conversa com jovens. Jovens que lêem, por exemplo, este livro que sistematiza caminhos:
-1- Identifica quem tem o dinheiro e as armas , ou seja, quem detém o poder.
2- Faz o que podes fazer quando se deparar a oportunidade ( enquanto não to proibirem).
3- Solidariza- te e age, ajuda uma família atingida pela crise económica.
Há quem não leia nada, mas se interrogue, que 50 anos de crise começa a ser demasiado no horizonte de quem tem vinte e tais. Os portugueses são burros, dizem , votam sempre nos mesmos. – E tu, não és português? – Votar ou não votar, é o mesmo. Difícil, ouvir isto. Sobretudo para alguém que pensa ter conquistado o voto, a democracia. Alguém que conta como era , não se poder falar, não se poder escrever, cantar, votar, ou na hora do voto haver uma lista única.
Atrevo-me a acrescentar mais um aviso - as artimanhas no discurso são muitas, os significados atribuídos às palavras, nos seus diversos usos , formas e contextos são mesmo uma armadilha, oiçam os comunicados do governo, a bulha à volta do termo"reestruturar", ou do significado de "permanente".
Ainda ontem assisti a uma conversa com jovens. Jovens que lêem, por exemplo, este livro que sistematiza caminhos:
-1- Identifica quem tem o dinheiro e as armas , ou seja, quem detém o poder.
2- Faz o que podes fazer quando se deparar a oportunidade ( enquanto não to proibirem).
3- Solidariza- te e age, ajuda uma família atingida pela crise económica.
Há quem não leia nada, mas se interrogue, que 50 anos de crise começa a ser demasiado no horizonte de quem tem vinte e tais. Os portugueses são burros, dizem , votam sempre nos mesmos. – E tu, não és português? – Votar ou não votar, é o mesmo. Difícil, ouvir isto. Sobretudo para alguém que pensa ter conquistado o voto, a democracia. Alguém que conta como era , não se poder falar, não se poder escrever, cantar, votar, ou na hora do voto haver uma lista única.
Atrevo-me a acrescentar mais um aviso - as artimanhas no discurso são muitas, os significados atribuídos às palavras, nos seus diversos usos , formas e contextos são mesmo uma armadilha, oiçam os comunicados do governo, a bulha à volta do termo"reestruturar", ou do significado de "permanente".
Pelo menos isto, não nos tirem, a nossa querida língua - mãe, mater tão dolorosa deste presente.
novembro 30, 2011
jorge de sena ser fiel a uma pátria/manda-os àquela parte
Gosto muito de oferecer poemas. Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya ofereci a antigos alunos. Ao tempo não havia copy paste e decidi fabricar um postal de natal para eles.
Era um tempo certo para este poema. A maior parte nem o terá lido convenientemente. Natal , tempo de férias e de esquecer a escola. Mas lembro o silêncio que se seguiu à leitura e o olhar de alguns, poucos. O que quer ela desta vez?
Agora também me apetece o silêncio. Mas ninguém aqui é meu aluno.
setembro 12, 2009
A PORTUGAL
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.
Araraquara, 6/12/1961,
do Capítulo "Tempo de Peregrinatio ad loca infecta" (1959-1969) do livro "40 Anos de Servidão", 2ª edição revista, Círculo de Poesia da Moraes Editores, 1982
Jorge de Sena
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.
Araraquara, 6/12/1961,
do Capítulo "Tempo de Peregrinatio ad loca infecta" (1959-1969) do livro "40 Anos de Servidão", 2ª edição revista, Círculo de Poesia da Moraes Editores, 1982
Jorge de Sena
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