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maio 10, 2016

Clarice

 Convidada a participar no Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria , em Bogotá, Clarice  limitou-se a ler uma  pequena introdução.

 – No Congresso pretendo mais ouvir que falar. –  Disse ela. 

«Eu tenho pouco a dizer sobre magia.
Na verdade eu acho que o nosso contacto com o sobrenatural deve ser feito em silêncio e numa profunda meditação solitária. A inspiração, em todas as formas de arte, tem um toque de magia porque a criação é uma coisa perfeitamente inexplicável. Ninguém sabe nada a respeito dela.
Não creio que a inspiração venha de fora para dentro, de forças sobrenaturais. Suponho que ela emerge do mais profundo do “ eu” de uma pessoa, do mais profundo inconsciente individual, colectivo e cósmico.
Mas também é verdade que tudo o que em vida é chamado por nós de “natural” é na verdade tão inexplicável como se fosse sobrenatural.

Acontece que tudo o que eu tenho a dar a vocês todos é apenas minha literatura. E alguém vai ler agora em espanhol um texto que escrevi, uma espécie de conto chamado “O ovo e a galinha”, que é misterioso mesmo para mim e tem uma simbologia secreta. Eu peço a vocês para não ouvirem só com o raciocínio porque, se vocês tentarem apenas raciocinar, tudo o que vai ser dito escapará ao entendimento. Se uma dúzia de ouvintes sentir o meu texto, já me darei por satisfeita.» 

dezembro 01, 2015

Clarice Lispector (2)

Lá estava ele, o ciumento, o senhor da biblioteca, esperando por Clarice . E a mim a custar-me ter de a lá deixar, entre os ácaros- antes a tal  barata, Clarice.


Valeu a pena ter pecado, ter ficado de castigo, ter adormecido perto dela todo este tempo. 

– No Congresso pretendo mais ouvir que falar. –  Disse ela.  Em Bogotá limitou-se a ler esta  pequena introdução.



«Eu tenho pouco a dizer sobre magia.
Na verdade eu acho que o nosso contacto com o sobrenatural deve ser feito em silêncio e numa profunda meditação solitária. A inspiração, em todas as formas de arte, tem um toque de magia porque a criação é uma coisa perfeitamente inexplicável. Ninguém sabe nada a respeito dela.
Não creio que a inspiração venha de fora para dentro, de forças sobrenaturais. Suponho que ela emerge do mais profundo do “ eu” de uma pessoa, do mais profundo inconsciente individual, colectivo e cósmico.
Mas também é verdade que tudo o que em vida é chamado por nós de “natural” é na verdade tão inexplicável como se fosse sobrenatural.

Acontece que tudo o que eu tenho a dar a vocês todos é apenas minha literatura. E alguém vai ler agora em espanhol um texto que escrevi, uma espécie de conto chamado “O ovo e a galinha”, que é misterioso mesmo para mim e tem uma simbologia secreta. Eu peço a vocês para não ouvirem só com o raciocínio porque, se vocês tentarem apenas raciocinar, tudo o que vai ser dito escapará ao entendimento. Se uma dúzia de ouvintes sentir o meu texto, já me darei por satisfeita.» 

Clarice Lispector, in Moser.


outubro 30, 2015

de castigo por Clarice





Sobre O Lustre escreve Clarice Lispector- «eu não o considerava completo, como uma mãe olha para a filha enorme e diz: vê-se que ainda não pode casar.»
 É difícil não sentir uma certa estranheza quando ouvimos um autor referir-se ao seu livro com  saudade, como uma mãe a falar de um filho que abandona o ventre materno - para pura e simplesmente nascer, ir à sua vida bem longe da casa materna –. Com o recém-nascido tudo é menos difícil – ele mantém-se dependente durante muitos anos, numa simbiose de corpos continuamos a alimentá-lo, damos-lhe leite,  colo, até gestos e palavras para se orientar pelo mundo nós fornecemos. Com os livros não é bem assim, eles são nossos até à porta da tipografia; a partir daí, seja o que deus quiser.

Teria Clarice adiado a partida do livro, teria ela preferido continuar a mudar-lhe as roupinhas, as vírgulas ou a falta delas, as vogais mais ou menos abertas, protegê-lo das luzes que podem cegar, ou das chuvas torrenciais? 
 
Isto gostaria eu de poder entender, caso não tivesse ficado de castigo. De castigo, exactamente, as palavras do senhor muito simpático da biblioteca- um senhor que podia perfeitamente ser uma senhora, como eu, mas a única coisa que não poderia, para já, era gerar um filho da sua barriga-  das suas palavras, podem nascer livros, não bichos. Eu gosto dos senhores que gostariam de ser como as senhoras. Reforçam a minha auto-estima.
 


Digam-me lá, como é que vou acabar de ler as 256 páginas que me faltam, ainda por cima com estas reflexões cheias de dúvidas?



abril 09, 2014

"o que está em cima está em baixo"



O espectáculo que Ricardo Pais apresenta no Teatro Joaquim Benite Turismo Infinito,  um dos mais belos a que assisti nos últimos tempos. Pessoa e as palavras, num espaço de perspectiva tão longe e tão perto, fraca expressão, a que encontro para caracterizar um cenário de luz que ora cria em nós a miragem de olhar as palavras num mundo infinito, ora num outro, tão linear quanto estas nossas vidas, de ecrã plano ou de folha negra riscada a branco. 


“Protejam-se contra a tortura da beleza”, diz Lídia Jorge no Prefácio de “Laços de Família” de Clarice Lispector e é o que se sente neste Infinito, bonito demais, tão belo que podes até chorar, mas não por ser triste. Tal como em Lispector, a quem Lídia Jorge chama “parente legítima de Pessoa”. 


  Será por o mundo estar cinzento, que me acontecem estes encontros improváveis, esta aparente dispersão, como se em múltiplas janelas procurássemos a paisagem que nos faz falta. 


“Clarice Lispector uma das raras escritas da qual se sai diferente quando uma vez lá se entrou, como se ela mesma fosse e contivesse em si a oferta de uma revelação surpreendente e por vezes devastadora”, afirma Lídia Jorge e eu penso em Saramago. Tudo por acaso, sucede estar a reler o "Evangelho Segundo Jesus Cristo", a olhar Maria mãe de Jesus, pelos olhos de Saramago, e a pensar, que sorte, ser mulher. E que deus, na sua infinita bondade tenha arquitectado, ao que parece, esta teia de úteros que perpetuam o universo e que, na sua imensa piedade, não tenha abandonado Adão sozinho no Paraíso, coitado .


 "Lugar instável" como Nuno Carinhas classifica o território deste " Infinito, de onde tudo pode rolar na nossa direcção …"