Mostrar mensagens com a etiqueta vidas/ poetas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta vidas/ poetas. Mostrar todas as mensagens

março 21, 2013

noite da poesia



 “(…)que a poesia é, por certo qualquer coisa de  infantil, de mnemónico, de auxiliar e inicial.”

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego, 18-10-31



As raparigas percorrem o prédio inteiro, de mãos dadas em danças de roda , escada acima , escada abaixo, invadindo as varandas  entrando por um quarto , saindo por outro. As raparigas não estão autorizadas a sair depois das dez da noite e nem têm jardim. Porque é primavera, cantam  – a primavera vai e volta sempre/ só o inverno vai não volta mais.


Estas e outras cantilenas associadas à primavera , a rituais de dias mais longos, aclarados de risos e brincadeiras, de vestidos de folhos , saias curtas, de correrias pelo campo grande fora, o nevoeiro a desfazer-se mais cedo na caminhada até à universidade.


Ainda bem que à poesia associamos este renascimento, esta alegria, mesmo que os poetas nos façam tantas vezes chorar. Quem nos dera uma lágrima , daquelas bem quentes .Há gente que já nem consegue chorar . E os poetas , tão bem que falam disto.

 Para muitos, a poesia já não é só de meninas primaveris, de flores nos cabelos.
mjc

maio 17, 2011

“ Só poetas do Concelho” na Galeria Verney.

Quando crescer quero ser como tu, Maria Aguiar. Pasmo . Tanto prazer de viver nesta menina de entas e alguns anos. Fugas de melancolia no olhar. Vou ali às vezes aos fins de tarde, menos pelos poemas, mais pelas personagens, o espectáculo das pessoas é o que me enternece.

Desta vez contaram-nos , com muito espírito , que ao grupo tinha sido proposto construírem um poema sobre a primavera. Ora parece que o nosso amigo Quilhosa Balsas , desagradado do lugar comum de tantos poemas sobre florzinhas e quejandos clichés , se tinha rebelado, nascendo assim o poema que vai dizer - À Primavera , sim, mas dito - À prima Vera.
Todo o charme de um homem de cabelo branco, figura poderosa, se levantou e se dirigiu à assistência. Rezava o tal poema que a prima que preenchera os sonhos eróticos do autor, poderia ter sido levada à certa, não fora o incómodo da rima constante do atchim, que se pôs a rimar ora com um passeio pelo jardim ,ora com as flores do camarim coibindo a paixão arrebatadora, do princípio ao fim do auspicioso encontro… Provavelmente os plátanos, este manto fofo e voador que nos atazana as primaveras pelas ruas de Oeiras a impedir-nos voos mais altos, gorando, claro está , toda e qualquer mal intencionada aproximação à nossa prima Vera.
Segundo o galante diseur, Manuel de Andrade, parece não se ter cumprido o ditado “ quanto mais prima, mais se lhe arrima” mas a rima terá valido a pena. Não acham?


Primavera

Ah a Primavera?
Oh! Se a conheci!
Andava eu por aí
Quando então a conheci.
Era uma elegante senhora
Foi uma paixão arrebatadora!
Mas quando passeámos num jardim,
Não sei o que me deu em mim,
Fechei os os olhos sem querer,
E explodi,
Atchim! Atchim! Atchim!

Fomos então ao teatro
e sem grande aparato escolhemos um bom lugar.
A peça era interessante
e a companhia exuberante.
Mas quando trouxeram flores no fim,
Não sei o que me deu em mim,
Fechei os olhos, sem querer,
E explodi,
Atchim, Atchim, Atchim


Em seguida uma ópera aconteceu
e a primavera enalteceu
A escolha acertada.
Com o traje bem a rigor
Lá fomos ao esplendor
Duma sala aprimorada.
No fim prá “prima donna”
Que já era bem uma matrona
Encheram de flores o camarim
Não sei o que me deu em mim,
Fechei os olhos sem querer
E explodi:
Atchim! Atchim! Atchim!

Fui então ao doutor
e queixei-me deste horror
do… atchim
Disse-me ele com certo ar de abandono
- Escolha para si o Outono
E como um burro que zurra grite :
Urra! Urra! Urra!

Quilhosa Balsas