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maio 08, 2013

d' o livro da primeira classe







O arroz -doce

Quando a Isabel fez anos , a tia Maria deu-lhe de prenda um fogão para as bonecas. Lindo fogão, com fornalha, caldeira, forno e chaminé.
Nesse dia , foram visitá-la algumas meninas suas amigas. E a Isabel pediu á mãe que lhe deixasse fazer no fogão o arroz-doce para a merenda . 
A mãe deu licença, e todas a cantar, trabalharam de cozinheiras. Não se sabe quem deu a receita. Mas o arroz doce tinha leite, limão e canela, e estava tão bom que era de comer e chorar por mais. 

O Carlinhos

O Carlinhos era uma linda criança de cabelos louros e olhos azuis. Faltava-lhe às vezes vontade de estudar; mas logo se animava com a idéia de vir a ser , um dia , como o pai. E então era vê-lo , a ler, a escrever e contar.
(...)

Segue-se a descrição de uma avó, santa velhinha, que reza pelo neto, e o texto acaba assim -  Meu Jesus! Protegei e abençoai o meu menino. Fazei-o como o pai, obediente à Vossa Lei, bom para si e útil à Pátria. 

Moral da história- muitas meninas acabaram por perceber que dar receitas sem receber direitos de autor e trabalhar sem salário não era vida.

  Deitaram fora os lindos fogões e ofereceram aos Carlinhos modelos com programadores digitais . Por isso vivem felizes e contentes e não pensam em voltar atrás.

  

 

abril 06, 2013

talking to me ,pessoa?

 

Are you talking to me? A esta frase estará sempre associada a entoação de Robert  de Niro e aquele modo de colocar a voz, de certos homens abrutalhados que falam com a boca cheia de favas. Se o crítico de O Público tivesse seguido as regras do velho professor Flor, ela não teria sido traduzida, apareceria em pé de página com  a sua explicitação .

No início do século passado   as mulheres tocavam piano e falavam francês, as senhoras faziam démarches e as criadas perguntavam aos convidados – uma chávena de chá por consequência?  Histórias destas percorrem gerações ;elas ilustram sobretudo o conceito a passar aos mais novos –  vale mais não  utilizar palavras que não se dominem , caímos no ridículo. 

A realidade é que muitas palavras foram saindo do armário dos patrões e foram sendo utilizadas em contextos duvidosos, mas saíram e andam por aí. É a história da língua.
Durante o período em que a palavra anda à solta, de grupo em grupo, saltita de gente que leu em latim para pessoas que nem para ler em português tiveram tempo, descobrimos frases de morrer a rir. Porque a palavra requer um contexto e dele faz parte quem fala, o género e a classe social do sujeito. Ora este caminho que as palavras percorrem para invadir o discurso do comum dos mortais, a que se irá chamar norma ,  está povoado de ironia, de cómico, é ele a essência do riso.

A imaginação do falante português parece não ter limites , descubro expressões lindíssimas e só me apetece é andar de gravador atrás. Porque será que a idéia de tempo é das mais corruptoras? Será o desejo de definir o indefinível, a passagem e o ritmo do tempo – uma chávena de chá depois de uma primeira, mas que não é consequência de nada, à priódica, a contaminação da expressão  latina.


À língua inglesa, essa quase obrigação que se nos cola à pele, ando a tentar esquecê-la. Em momentos  de dor , de prazer e de raiva ainda surge o desabafo,  what the hell, para não dizer what the fuck. My baby girl, love you so much, e outras palermices.

 A nossa língua é realmente a língua da claridade, como  diz Pessoa e a nossa pátria essa língua ,ou seja , o lugar onde nos sentimos bem, a nossa praia, diríamos .

 Mas hoje a nossa pátria é o mundo.
E quando eu quiser dizer ao mundo de que é feita esta gente, que transforma a desgraça em arte, posso sempre voltar a outra língua, para que mais gente o saiba. Leiam e encham-se de orgulho. No new york times sobre portugal.


P.S.- Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar.
In,Carta de Fernando  Pessoa a Mário de Sá Carneiro, 14 de Março, 1916





janeiro 19, 2013

deixa-me ser tempestade contigo/ e a censura



Writer and reader are only I and you, an urgent need to speak and an urgent wish to hear, within the decorum imposed by astonishment that in the whorls of this black explosion there is a silence where things can indeed be said and heard.



Esta necessidade urgente de que fala Marylinne Robinson vai  sendo regida e  amansada por um misto de auto censura e perfeccionismo que a idade comporta. 

 

  Lembro a leveza com que aderíamos a convites para publicar as nossas produções literárias  em páginas  para jovens. Censura, já bastava a que existia e  nos surpreendia com cortes inesperados , é que a sinceridade estava acima de qualquer suspeita e não queríamos saber de verdades inconvenientes .  Quanto à correcção do discurso, do estilo ou do verso, contentávamo-nos com o correr da pena, e, às vezes nem corria nada mal.


Não se trata de uma página de novos! Disto se reclama a página Initio que Filipe Vieira edita em O Jornal,no Moçambique pré- libertação.Fundamental seria revelar talentos, receber o que vier de jovens com algum valor e alguma intencionalidade, expressa a posição de princípios de 68.



Lançávamos ao papel o tal desejo de ser escutados e se o resultado fosse censurado ou o original mutilado (um truque habitual), a desilusão era uma dor negra e selvagem. Mas nem a censura, nem a moral de costumes nos impediam de pensar em liberdade. Eles tinham tido professores como António Quadros , José Afonso. Alguns não estavam tão infectados pelo cinzentismo da metrópole, o arbeit macht frei. Ser “artista” não era ser imoral.


Maria de Lurdes Silva, Maria José Ferreira, Olga Almeida,Celso de Vasconcelos, Eduardo Viegas, Jorge Barriga, Eduardo Pitta, José Manuel Godinho,  eu própria,  participámos  desta aventura .


A controvérsia na escrita, na fotografia ou na gravura fazia parte da nossa forma de estar. Inesquecível, a carta aberta da Olga Almeida a Eduardo Pitta onde classifica  certas  intervenções dele como“masturbações literárias” e o convida  a “abrir horizontes” .

 Publicávamos poemas  mais ou menos  inovadores ,os de Fernando Paixão -  deita açúcar no café/ mexe / e acende um cigarro ; mais ou menos panfletários - o meu olhar sobre o mundo com as palavras que encontrava  – o menino-fome/ aquele que não entra porque é negro/nem o outro que não estuda por ser pobre/homens de rastos /como cães sem dono, escrevia eu, e pedia ao mar -  deixa-me ser tempestade contigo;Jorge Barriga  a conseguir  a síntese criativa - o céu não tem espessura aos meus olhos/ e as asas pesam-me palpitantes do desejo de voar.   



E muitos outros, que será feito deles?



 Só ultimamente tenho encontrado alguns desses companheiros dos meus dois piores anos,  piores, não sei. Quando se aprende tanto em tão pouco tempo, vive-se bem. E, além do mais, fiz parte de um sonho que se cumpriu.



Uma coisa é certa, não vai haver censura que cale o nosso grito, nunca mais.
maria joão carrilho

setembro 08, 2012

a propos de um pequeno parágrafo de um discurso demagógico antes do futebol


Não se pode eleger o desemprego como a nossa maior ameaça económica e social e depois hesitar naquela que é uma das poucas ou mesmo a única medida que oferece garantias de a combater decisivamente. E por isso vos peço: não acreditem nas pequenas soluções, nas soluções indolores, para os nossos problemas mais graves. Não se deixem tomar pela complacência de quem pensa que temos todo o tempo do mundo, ou de quem defende que já fizemos tudo o que era necessário para vencer a crise e que agora deverão ser os outros a fazer o resto. O que precisamos de fazer para reganhar a nossa autonomia. (pb )



Senhor primeiro ministro, não acredite em pequenas soluções, nas soluções indolores, que são as que agradam aos bancos e ao capital.

Não se deixe tomar pela complacência de quem pensa que tem todo o tempo do mundo, ou de quem defende que em primeiro lugar temos de atacar os mais fracos, os trabalhadores,  reduzir o custo do trabalho. Estamos cada vez mais perto do dia em que como o senhor e os seus capangas temem, deverão ser os outros, ( aqueles a quem confiámos as  parcas economias que íamos arrecadando à custa do nosso  trabalho e a quem pagámos contribuições durante toda a vida) a fazer o resto”.

Porque é que o senhor descobriu tão rapidamente novas ( ?) soluções  que baixam  o custo  do nosso trabalho e deixa para depois incomodar as verdadeiras sedes da especulação financeira, os muito ricos, os dos vencimentos  milionários ?

Não, o senhor não tem medo dos tubarões, dos outros, está é à espera que eles, sim, tenham tempo para continuar a colocar o que roubaram ao país nos sítios que o Senhor sabe, longe de poderem ser apanhados com sacas de dinheiro na mala do carro. Que ,isto aqui, Portugal, o nosso querido Portugal , não é um filme de gangsters. Era o que faltava, não era, senhor primeiro  ministro?

 by, madame quousque tandem

abril 26, 2012

o silêncio , cavaco


O passeio habitual pela avenida abaixo, desta vez quantos somos , os cravos venderam-se todos antes das 2 da tarde. Gostei do discurso do seu camarada, parabéns, muito obrigada.

Olho a expressão entristecida de muitos, estou aqui, mas no limite, não tenho palavras, é o que me dizem os seus olhos, os fatos encharcados pela chuva, as lágrimas do tempo desta hora, a nossa única aliada.

Os slogans habituais gritados na voz que nos resta, caminhando e andando somos todos iguais, não era assim a cantiga? Nós, os que temos quase tudo, os desempregados que insultam os senhores do dinheiro, os jovens precários que vão improvisando palavras de ordem sobre o que não comem quando a conta no banco fica  a zeros.

 A mensagem que a discreta rapariga distribui em minúsculos papelinhos do tipo das quadras populares dos vasos de manjericos, pede silêncio, às 16.30. E pergunto-lhe porquê, será algum minuto de silêncio por alguém que não vai estar mais presente. Que não fala português, que isso não é problema, falamos noutra língua. Percebo, os silêncios são também uma forma de comunicar, percebo o seus múltiplos significados e a sua utilidade quando é preciso calar para ouvir o outro, para pensar, mas aqui, neste momento não podemos silenciar o que nos vai na alma. Ela concorda e olha insistentemente o relógio, são 16 e 30. E eu a pensar como é que havia de traduzir o poema do tal poeta timorense, Fernando Sylvan, pedem-me um minuto de silêncio, nunca me calarei, ou como é que havia de dizer em inglês que, ruído, tinha sido o vómito putrefacto de cavaco, nessa manhã. 

 
A sorte é que ninguém se calou.

janeiro 23, 2012

se calhar devíamos deixar de perder o nosso tempo a alimentar este clima de intriga e pegar o boi pelos nomes

 Sonhei que era a  Maria Mendes  , lá  para os lados de   Paderne, que nos idos de novecentos, eu, a Maria Mendes , me teria perdido de amores por um algarvio ,  e que a esse chamamento da carne e da alma a que os mais românticos chamariam paixão e os menos pecadores, os  de sotaina,  devassidão, libertinagem, podridão.

Mas  eu era a Maria Mendes e tinha já uns olhos transparentes e uma blusa florida além de umas pernas quentes sob a saia rodeada. Via-me numa noite de baile mandado a ser bem ou mal, mandada, pois, e a consentir. E a ir , numa relationship, num tempo sem facebook- antes-pelo-contrário-  nesse tempo ou tinhas sido enganada e eras uma concubina, ou não o tendo sido o eras na mesma. E tu a criares a Mariazinha o melhor que sabias , a tratar-lhe das febres e das varicelas, mas a seres não mais que a madrasta, aquela com quem o pai dos filhos se deita no pecado. E a não poderes comungar na missa, que vives amancebada e em pecado mortal.

 E nos idos de novecentos e tais, a Mariazinha já criada,   que ao tempo não seria mais que a namorada  do senhor doutor, que era o que eram as discretas obedientes noivas dos senhores doutores . A Maria coitada, a querer fundar uma próspera família, a desejar dar aos filhos o que ela não tinha tido, a haver de subir na vida. A Maria, o arrimo do seu homem, por quem tudo sacrificaria, a bem da nação, a bem da família. E o senhor doutor , coitado, a ter de assinar uns papéis para os senhores da nato, como muitos de nós tiveram de fazer , afirmar ser fiéis à pátria em papéis azuis em troca de um lugar, se  o nosso nome não tivesse ainda sido inscrito em dossiers da António Maria Cardoso.

E vai o Senhor doutor, com tantas recomendações da sua Maria, que não falasse da outra a tal Mendes , a ser mais papista que o papa, a acrescentar uma notazinha de pé de página, pois claro, não fosse o diabo tecê-las.

  E eu no meu sonho, a querer chamar os bois pelos nomes , aqueles que já na escola primária apontavam  à  professora – foi aquela menina , minha senhora, foi ela.

 
 Vozes da criançada,  filhos, netos e sobrinhos me invadiram a casa . Gritavam em espanhol, vá-se lá saber por quê,  liberdade ou morte !

 
E então acordei.

dezembro 28, 2011

este céu azul deste natal em portugal

Era abril e prometeram-lhes tudo. Liberté, egalité, fraternité. Tudo coisas muito antigas. Logo nesse dia se reuniram  os de dentes amarelos, em tons perguntativos que  não deixavam dúvidas , a não ser aos inebriados pela luz da liberdade , da igualdade da fraternidade. 
Narizes torcidos em rostos cinzentos, nesse mesmo dia perguntavam-se uns aos outros em surdina , guturais   Libertéeeeee? Egalitéeeeee?  Fra…..quê ê ê????


E os inebriados e as inebriadas dos céus azuis de lisboa, do alentejo, de cidades por aí, de certas aldeias do norte em que o dia chegava só no dia seguinte. - Será possível? Será agora que o meu manel não vai prá guerra? Será desta que a minha mais nova vai ganhar o mesmo soldo de um homem? Querem ver que é agora que me libertam o homem de Caxias? E libertaram.


 E ao mesmo tempo se acoitavam os que lá os tinham posto. E ouve indícios, maiorias silenciosas, a reacção, dizia-se. Os comunistas, diziam eles.   

  E a primavera de abril durou só até novembro. E o resto são cantigas.