Mostrar mensagens com a etiqueta António Carlos Cortez. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Carlos Cortez. Mostrar todas as mensagens

dezembro 30, 2015

O Tempo Exacto de António Carlos Cortez


 Este blogue já fez várias Passagens de Ano. Para celebrar  2016 aqui fica, mais uma vez, 
  António Carlos Cortez, poeta.

Crítico, professor,  ensaísta,  colaborador permanente de diversas publicações, entre as quais o  JL e Colóquio Letras.

 Uma outra arte - ACC  inventa  tempo para estar com amigos, passear por entre as gentes, onde, imagino eu, bebe da fonte do quotidiano tantas das  palavras que habitam os seus versos.

primeira teoria do poema


o silêncio destas ruas serve-te.
no café pedes um gin tónico com gelo
e folheias ao acaso as notícias dum jornal.
o nascimento dum poema é uma coisa demorada
e o olhar é uma aprendizagem cruel mas verdadeira.
essa a única lição possível quando és
estrangeiro numa cidade qualquer
ou numa página em branco


António Carlos Cortez




O Jornal I  coloca a questão  - Ser poeta e professor ?   

  ACC - Como pedia Jacinto Prado Coelho , num texto fundamental que os professores deviam ler, «A Educação do Sentimento Poético», respondo com uma pergunta: Como é que se pode ser professor sem ser poeta?

 Mas quem melhor do que Pedro Mexia para vos falar de António Carlos Cortez?

Ouvir António Carlos Cortez.

julho 08, 2014

Foucault, Xerazade e António Carlos Cortez

 

« Históricamente, foi  um gesto carregado de riscos, velho campo bipolar do discurso, praticando sistematicamente a transgressão, restaurando o risco de uma escrita à qual, no entanto , fossem garantidos os direitos de propriedade. A partir daí ( finais do sec. 18 inícios de 19), explica  Michel Foucault,« a possibilidade de transgressão própria do acto de escrever adquiriu progressivamente a aura de um imperativo típico da literatura.» 

Ainda bem, transgredir é delicioso, mesmo que não levemos atrás de nós o resto da turma. Mas ser imortal é preciso?  Inspiradora, a imagem de  Xerazade,   com a vida presa por um fio.  Para Xerazade contar histórias era não morrer ,«adiar a morte».(pgs 35,36)*.

«A nossa cultura metamorfoseou este tema da narrativa (...) a escrita está agora ligada ao sacrifício da própria vida (...) a obra que tinha o dever de conferir a imortalidade passou a ter o direito de matar, de ser assassina do seu autor.» Ou seja, como Foucault já tinha citado,- Beckett- « que importa  quem fala?» (pg 34)*

  Haverá  autores imortais,embora  prefira pensar que se alimentam uns dos outros, desde e para sempre.  Quereria  Xerazade  ser imortal? Talvez apenas viver, que não vive se não imagina, não inventa,não conta as suas histórias . A escrita é estar vivo, como diz António Carlos Cortez , «o rio da vida», quem escreve «como quem morre/ e quer viver» que escrevendo se «prolonga/ o dia acabado/ em mais uma noite».

Só. 

 

POESIA REALISTA

É esta a rua
O rio da vida
A vida tua

Quem por demasiado
tempo se entregou
ao exercício

de escrever
como quem morre
e quer viver

saberá um dia
se foi de verdade
amado?

Não é a escrita
essa rede realista
que agarra a vida

nas malhas de fogo
ou no trânsito do cianeto?
Quem escreve saberá

que escrevendo prolonga
o dia acabado
em mais uma noite

longa como
corpo esgotado?

António Carlos Cortez


Que bom passar férias com a filosofia e os poetas.


 

março 21, 2014

do silêncio, dos poetas e de António Carlos Cortez



Preocupa-me o silêncio. A pausa no discurso oral, escrito, musical. O silêncio significativo de uma birra de criança, do tempo em que se intui ser o silêncio muito mais pesado que a palavra, a birra. Sei do silêncio da música, que pode ser insuportável ou o inevitável freeze depois do choque. O silêncio do actor, microssegundos de espera que acrescentam a intensidade da catarse, o rir ou o chorar do espectador. Sei do silêncio pesado das palavras, a intermitência, a paragem, a incerteza, a ruptura, os pontos finais, as vírgulas, a  interrogação. 


Mas não há como os poetas para gerir tão bem estes silêncios.








setembro 12, 2013

antónio carlos cortez, a resposta




Primeiro a obrigação. Agora que deixei a amadurecer a tarefa que tinha em mãos, vou finalmente ler o que me apetece – pego em Clarisse Lispector e mergulho com delícia no rio das águas que parecem turvas, o das palavras dela sobre a paixão. Na livraria espreita-me o último Lobo Antunes, acabou-se a proibição de te ler, que tu, já sabes, vais ficar em mim, vais invadir as minhas frases, e eu não quero, fujo de ti como de uma paixão nefasta, que não me deixa ser eu mesma, que te pegas como uma febre, bem sei. Resisto. Não é Meia Noite Quem Quer, fica para depois. 


Decido ter chegado a hora , arranjar tempo para descansar no colo dos últimos poetas acabados de chegar, pão fresco, ainda quente fora da estante, Nuno Júdice e António Carlos Cortez.

 Ponho-me a ler em silêncio e descubro que de Nuno Júdice e de António Cortez me apetecem os sons das palavras. Leio em voz alta, releio, nas pausas que são as minhas, como se quisesse que o público, que não existe aqui, mergulhasse nelas através de mim, como eu mergulho em Clarisse.


Lembro-me de versos curtos, olhe aqui mr. Wilson, acho que era vinicius , as palavras do palco a saltarem como espadas, era  assim que eu queria ouvir esse quase grito – o de António Carlos Cortez que se e nos interroga no poema "Ao Leitor" :

(...) E agora, quando lês, consegues separar /o lido na página do vivido onde encerraste / a verdade íntima dos factos? (...) 



e  em "No Mármore", também  presente no livro "Linha de fogo":

 “ (…) / Será excessivo este texto? / Salvamos o dia com versos? / (Excessivo é viver depois disto: / sem forças depois desta fala) /. E António Cortez resolve esta questão, ” (…) / porque na linha de fogo / insincera queima para sempre / o não dito o vivido a ficção / e se te acusarem de jogo / diz-lhes do logro da noite / que é mentira falar-se de morte / se as palavras não nascem do chão /.


Isto de uma pessoa se sentir quase de férias, de repente, é muita interrogação.


Vou mandar matar o meu cavalo louco que me desorganiza o pensamento, me faz levantar da cama tarde, me quer levar para a praia, o campo, o cinema, a urbe e os seus irrequietos habitantes. 


 É bom estar de férias?