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dezembro 19, 2012

Acordai ou la mort!




Se aos deuses nada é impossível,  a nós , homens e mulheres de boa vontade ,que não somos eternos , compete sacrificar a própria vida por um mundo melhor .

A evidência de que na História não há inevitabilidades ficou gravada nas palavras- Liberté, Egalité, Fraternité, ou la mort! – o mote que nunca morrerá.
  Nem sempre o mal acaba por triunfar , nem o rico sobre o pobre, nem o forte sobre o fraco.


 Existem milhares de histórias  de avanços e recuos, como este retrocesso português.  Há quem preferisse silenciar-nos.  Mas felizmente  temos  as palavras , a música e os poetas .

  Um   dia  cantámos José Gomes Ferreira e Lopes Graça.

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

 

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações


Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!




 Já faltou mais para descobrir o gesto certo , a hora certa , para fazer “ o que ainda não foi feito” .

Chega de “embalar a dor dos silêncios vis”, basta de sermos “ raios e tufões adormecidos”, quando é que vamos “acender de sóis este mar sem cais” ?









  mjc

novembro 25, 2012

nós, os da beira-mar, vago contributo para um diálogo norte / sul



Quem nasce à beira - mar tem o mundo maior, o horizonte plano e infinito, logo ali.

Ponham-se no nosso lugar – este sol, o mar ao fundo, todos os caminhos para o infinito, todas as respostas para todas as perguntas. Se Ulisses lhes resistiu, foi só porque estava de passagem e tinha um grande amor à espera. É que nós vivemos com o infinito, o próprio deus vive connosco, na sua força brutal e desconhecida, nem bom nem mau, apenas deus. Um deus à nossa imagem e semelhança.

O que é isto comparado com as vossas montanhas de neve, as vossas cavernas escuras aonde há muito pouco tempo aprenderam a acender clareiras de luz para paredes húmidas de reflexos de negrume. Será aí o Hades? Esquecidos os velhos deuses, acabam dominados por divindades castigadoras do prazer e do pecado.

Nós temos tudo. Todas as portas abertas para a praia. A vontade de infinito nos passos infantis, no balançar do ventre das nossas mães. O mar chama-nos todos os dias, numa sedução de cheiros, de sons, de águas que ora brincam ora nos amedrontam. 

Partir, sentir. Se ele me chama, por que não ir, por que recusar o convite desses seres de água, que dançam para nós sob sete véus translúcidos de cores que queremos conhecer. Não se resiste ao grito do mar, aos ribombares das marés vivas, à doce fala da onda pequenina a lamber-nos os pés.  

Vocês têm belos músicos, filósofos, enormes poetas – je poetischer, je wahrer, quanto mais poético mais verdadeiro, Novalis – bons contabilistas, organizadores das mentes e das vidas.

Nós queremos é partir, ir pelos caminhos do infinito, somos quase todos poetas.


julho 13, 2012

pessoas armazenadas




No entiendo, no entiendo, no te conviene, no te conviene, respondiam as madres, tínhamos nós 7 ou 8 anos e procurávamos desculpas para o que não queríamos perceber.

   Quando me convenci que posições deste tipo eram as tais que chegavam ao ponto de provocar mortos e feridos, a minha Prof. de português já tinha desistido de me tentar convencer que a guerra podia ser uma coisa estética – só se for vista de outro planeta, pensava eu -.

  Acreditei durante algum tempo ser a comunicação a chave de todas as pazes.

Bem se vê que não, que por mais cimeiras, conferências, encontros inventados pelos homens , as guerras nunca acabarão. Os biólogos encontram uma explicação, os linguistas outra, os sociólogos e os historiadores lá terão a sua, o Nuno Crato ou o Gonçalo Tavares, serão até capazes de encontra a tal fórmula que o explica. 

Podemos sempre procurar culpados - os gorilas,os padres,hitler, babel...

Terá sido o ponto de vista de mim mesmo, ser eu o centro do mundo o que terá dado cabo deste mesmo mundo?

  Esta posição estratégica, egoísta, egocêntrica e muito esperta quando o nosso interesse é fazer calar o outro, cortar a comunicação?

Mas nem são precisas frases. Basta enunciar palavras, fazer uma lista.

 50 pessoas armazenadas
 casas de banho improvisadas
 afro descendentes
 guiné-bissau
 conakri
 corrente eléctrica  curta
 comer nos joelhos e à luz da pilha
 cidadãos de segunda
 famílias para alimentar

E toda a gente percebe.

Empresas grandes e poderosas compram a intermediários o trabalho de trabalhadores que prescindem dos seus direitos para poder dar de comer aos filhos.

A comunicação existiu? Falta a paz.

abril 21, 2012

salazar , o medo


um namorado, um pai, um irmão, um amigo na guerra, não havia quem não tivesse. o maior medo era o da morte. voltarem estropiados do corpo ou da alma, não nos ocorria assim tanto. medo de comprar certos autores, certos títulos, ou de os vender, o livreiro olhava-nos nos olhos, venda, que eu não digo nada a ninguém, mas ele ficava-se por ali, medo de que fossemos da pide, não temos, não. medo de publicar o que escrevíamos, podiam não gostar de nós, pior ainda, cortar, cortar, cortar, silenciar o pensamento. medo de ir ao médico, podíamos estar grávidas e ter que decidir abortar em segredo. medo de falar, que as meninas decentes não existiam para ter ideias, medo que o nosso pai fosse preso, uma vergonha, que o nosso irmão desertasse ou se perdesse pelos montes cheios de neve antes de chegar à fronteira. medo de ouvir conversas, quanto menos soubéssemos melhor. medo de quem entrava na nossa casa, à despedida podiam puxar de um cartão-de-visita, se precisar de alguma coisa, por baixo do nome, a sigla, pide- dgs, como se não fosse nada.

no limite do medo, quando a mordaça ameaçou matar-nos e nós decidimos viver, dando a própria vida  caso fosse preciso, muita gente se juntou, para que nunca mais houvesse medo.