Estas primaveras outonais que tardam a nascer são como bebés preguiçosos que adiam a viagem para o mundo fora das mães e dão nisto. Livrarias acolhedoras , calorosas , o leitor senta -se junto à lareira a ler.Numa tal modorra que já nem o livro segura nas mãos. Uma lareira imaginária . Como o encontro destes três amigos virtuais que vou seguindo com agrado. Com o copy paste construímos as realidades improváveis que quisermos.
Mas a Livraria Barata é um ícone e de ícones «é feita a vida da gente». Fundada em
1957, instalada já então na sua actual localização, na Avenida de Roma em
Lisboa, mas em pouco mais do que um vão de escada, ela foi um dos alvos
permanentes (julgo mesmo que o principal) das brigadas da PIDE na «recolha»
sistemática de livros indesejados pelo regime. Nacionais ou estrangeiros, mais
de 4.000 títulos desapareceram dos escaparates durante o Estado Novo.
O seu
fundador – o Sr. Barata – era um caso especial na cidade: não se limitava
a esperar a chegada dos agentes, escondia os exemplares que podia e vendia-os,
tanto quanto me lembro semi-embrulhados, a quem chegava a tempo de ainda os
encontrar. Diz a Joana Lopes.
E confessa Pacheco Pereira:
Para um frequentador compulsivo de livrarias essa voz dos livros não é estranha, mas nunca me tinha perguntado sobre as suas razões e, em cada caso, há razões. Como quase tudo o que é interessante na vida é movido a curiosidade, o grande motor intelectual de sempre. Surpreende-me aliás o pouco que se escreve sobre a curiosidade, dado o papel que ela tem no modo como nos movemos pela cabeça e pelo corpo. Pode-se assistir a dezenas de colóquios e debates sobre o conhecimento, a inovação, a aprendizagem, a escola, as empresas, a arte, a literatura, e embora haja referências à curiosidade, de um modo geral está subvalorizada. Posso-me enganar, mas sem curiosidade é-se pouco mais do que um idiota especializado, com ênfase no idiota.
Enquanto houver livros para ler, sei que não terei um único momento aborrecido na vida.
Só isto basta para lhes dever muito.
