março 21, 2013

noite da poesia



 “(…)que a poesia é, por certo qualquer coisa de  infantil, de mnemónico, de auxiliar e inicial.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego, 18-10-31



As raparigas percorrem o prédio inteiro, de mãos dadas em danças de roda , escada acima , escada abaixo, invadindo as varandas  entrando por um quarto , saindo por outro. As raparigas não estão autorizadas a sair depois das dez da noite e nem têm jardim. Porque é primavera, cantam  – a primavera vai e volta sempre/ só o inverno vai não volta mais.


Estas e outras cantilenas associadas à primavera , a rituais de dias mais longos, aclarados de risos e brincadeiras, de vestidos de folhos , saias curtas, de correrias pelo campo grande fora, o nevoeiro a desfazer-se mais cedo na caminhada até à universidade.


Ainda bem que à poesia associamos este renascimento, esta alegria, mesmo que os poetas nos façam tantas vezes chorar. Quem nos dera uma lágrima , daquelas bem quentes .Há gente que já nem consegue chorar . E os poetas , tão bem que falam disto.

 Para muitos, a poesia já não é só de meninas primaveris, de flores nos cabelos.
mjc

março 15, 2013

ruy belo lugar de encontro




A poesia é como o amor, não se discute? 

       Põe-se o leitor para aqui a conjecturar, a tentar descobrir porque escreve o poeta assim e não assado. Pela dor é que vamos, pensa, e procura na estante qualquer coisa que sustente esta sua certeza, de ser pela dor que se poetiza. Cá está, por alguma razão Paul Eluard deve ter chamado a este livro  Capitale de la douleur. É isso, a poesia é o lugar aonde se sofre e aonde ninguém nos diz, não chore, vá lá, não chore, seja uma mulherzinha, seja homem.


O poema será também o lugar onde nos encontramos, nós, e os poetas uns com os outros. E se esse lugar for um eléctrico, que até se pode chamar desejo ou nem por isso, daqueles amarelos da nossa Lisboa? E se num poema do quotidiano, enfim, desses quotidianos que albergam uma patente insatisfação do eu (… na humilhante morte de quem era alto eterno e dominante…) se unissem Ruy Belo, José Gomes Ferreira e Alexandre O’ Neill? 


Poderia a dor ser mais banal, menos cruel?



o poeta num eléctrico


De súbito ao cair de mais um ano
sou por instantes sinto-me ao cair da tarde
do sol que antes brilhante é luz lustrosa
e pegajosa agora à superfície da calçada
na humilhante morte de quem era alto eterno e dominante
sou ao cair da tarde de um ano que cai
eu o poeta o instalado o mais que muito aburguesado
um colectivo passageiro num eléctrico
mas só supostamente anónimo ou popular ou colectivo
pois posso dar-me ao luxo de evocar um livro lido há muito
num destes animais metálicos já hoje arcaicos deslocados
e amanhã vivos apenas nesse livro do zé gomes que os evoca
e eu me posso dar ao luxo de evocar após haver falado
nessa farmácia onde comprei há pouco o anti-asmático
do cão asmático das praias que primeiro ouvi tossir
num verso de o’neill e só depois num mês de maio em espinho
ao imprimir na areia graves passos de poeta nupcial
sinto-me alguém de súbito ao pagar o meu bilhete
bilhete de quem volta e de quem vive do trabalho
mas que pode exibir o seu sapato alto à moda
e alinhar uns versos no papel da embalagem do remédio
E eu que distraído e que perdido e que privado já
de mais alguma face da embalagem do remédio onde escrevia
eu que já não sabia como pôr ponto final
em toda esta conversa mais do que fiada
dizer ao ver que continuo alheio lírico e sentado
oiço a voz grossa e neutra do sisudo guarda-freio
que chegámos ao fim da viagem para ele
e fim deste poema para mim



Ruy Belo, Obra Poética, ed. Presença



Ouro sobre azul (azul, sim ) seria embarcarmos todos no mesmo eléctrico, ainda que para curta viagem, calçada da Glória acima, e encarnarmos a mulher de carne azul; ou alguém quer fazer de cão asmático?

março 12, 2013

Tiago Patrício, Trás- os - Montes






Assim como há quem diga que quando se morre não se vai logo para a morte, ponho-me para aqui a imaginar quais terão sido os sítios por onde andámos antes de sabermos que existíamos.

Só a partir do momento em que nos lembramos dela é que podemos dizer quando começa a nossa infância. Aquilo que não recordamos não existe. Por isso é tão significativo o que a nossa memória retém desse período – a surpresa, a verdade dos sentidos, a liberdade do olhar.

Pareceu-me que este romance tinha que ver com estas sensações. Lembro-me de uma impressão semelhante me ter ficado de uma outra história, que como esta, resolvi partilhar com gente de quem gostava – Panait Istrati, Os Cardos de Baragan, que redescubro num esforço googlíco de memória.

Ora, ao ler Trás- os-Montes, é essa sensação que me prende, a mesma de quando li Panait Istrati, num tempo em que nem sabia onde ficava a Roménia. De ambos me ficam as infâncias de sítios fechados, lugares que ninguém conhece, lugares que imagino no meio de montes e por detrás de muros que se abrem para mundos brilhantes, por caminhos de infâncias à beira da terra, de segredos que se escondem dentro dela e nos ensinam a viver.

 A crueldade infantil, a caça aos pássaros, a vergonha do corpo da mãe de Teodoro, as regras estritas de costumes em que os irmãos controlam as irmãs, o seu bom nome. As missas, as raparigas mais velhas com os cestos de ofertório em roupas de cabaré, o pecado, as revistas com mulheres, tenho de pecar, tenho de pecar senão rebento, diz Edgar.

Trás-os-Montes, um livro aonde apetece voltar, como a todas as infâncias.


março 08, 2013

europa , a triste viuvinha, natália correia





Há gente que queríamos que não se fosse embora. Pessoas com quem pudéssemos estar, agora. Mesmo que só as víssemos  pela televisão , em debates assanhados no Parlamento , contra a mediocridade e o pacovismo das idéias.

 Mesmo que não fosse ao vivo, mas  pela boca de outros que ouvíssemos comentar - de como tinhas sido tão bonita, da boquilha , das tertúlias, das conversas no Botequim.

Todas as tuas palavras foram benvindas. Assim como a tua presença, o teu corpo, a tua voz e o modo como não desististe de a usar.


 Lembrei-me de ti por causa das mulheres, confesso. E acho que temos boas notícias – estamos praticamente no dia em que não vai ser preciso falar mais disto, do dia da mulher – mulheres e homens, somos todos juntos. Até porque a tua reflexão, essa sim , é completamente actual.



O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS

"No topázio mais triste da minha clarividência, apareceu-me o anjo do Ocidente. Tropeçava de sombra em sombra e a espada com que guardava os jardins com buxos de livros da Europa despedaçara-se em números que espavoridos fugiam uns dos outros. Um horizonte de canções blindadas cantava a parábola das cidades brancas cobertas por noites laboriosas de formigas. As estátuas cambaleavam no alto de temerosos pensamentos. As catedrais eram levadas por um vento de elevadores endemoninhados. Mulheres a arder em revistas ilustradas faziam strip-tease para latas de conserva boquiabertas. E a Europa fugia para trás. Fugia parada na louca pulsação do seu movimento estático. E a Europa era a triste viuvinha no meio de uma roda de crianças que matavam índios num filme americano.

Desatei então a correr para o sítio onde se chora. O sítio onde se chora é na penumbra pensativa. No quarto de estalactites da alma onde se fazem poemas. Mas notei que no meu pranto faltava uma lágrima e essa lágrima era Portugal. Percebi finalmente que Portugal era eu a chorar trevos de cinza pela Europa."

  Natália Correia

março 02, 2013

uma arma carregada de futuro

Queremos as nossas Vidas: Texto de Diana Andringa:

 Dizem-nos por vezes: «não vale de nada fazer manifestações — “eles” não nos ouvem». Mas como certamente não nos ouvem é se ficarmos cada u...