março 31, 2014

Joana Lopes , Pacheco Pereira na Barata com os Urban Sketchers


Estas primaveras outonais que tardam a nascer são como  bebés preguiçosos  que adiam a viagem para o mundo fora das mães  e  dão nisto. Livrarias acolhedoras , calorosas , o leitor senta -se  junto à lareira a ler.Numa tal modorra que já nem o livro segura nas mãos.   Uma lareira imaginária . Como o encontro destes três amigos virtuais que vou seguindo com agrado. Com o copy paste construímos as  realidades  improváveis que quisermos.



Mas a Livraria Barata é um ícone e de ícones «é feita a vida da gente». Fundada em 1957, instalada já então na sua actual localização, na Avenida de Roma em Lisboa, mas em pouco mais do que um vão de escada, ela foi um dos alvos permanentes (julgo mesmo que o principal) das brigadas da PIDE na «recolha» sistemática de livros indesejados pelo regime. Nacionais ou estrangeiros, mais de 4.000 títulos desapareceram dos escaparates durante o Estado Novo.



O seu fundador – o  Sr. Barata – era um caso especial na cidade: não se limitava a esperar a chegada dos agentes, escondia os exemplares que podia e vendia-os, tanto quanto me lembro semi-embrulhados, a quem chegava a tempo de ainda os encontrar. Diz a Joana Lopes.

E confessa Pacheco Pereira:






http://2.bp.blogspot.com/-xnzNhDW_RnY/Ul71fAX5srI/AAAAAAAADZ8/wuKgbPbHOIY/s1600/LU%C3%8DS_AN%C3%87%C3%83_2013-10-14_Livraria+Barata,+Av.+Roma,+Lisboa.jpgPara um frequentador compulsivo de livrarias essa voz dos livros não é estranha, mas nunca me tinha perguntado sobre as suas razões e, em cada caso, há razões. Como quase tudo o que é interessante na vida é movido a curiosidade, o grande motor intelectual de sempre. Surpreende-me aliás o pouco que se escreve sobre a curiosidade, dado o papel que ela tem no modo como nos movemos pela cabeça e pelo corpo. Pode-se assistir a dezenas de colóquios e debates sobre o conhecimento, a inovação, a aprendizagem, a escola, as empresas, a arte, a literatura, e embora haja referências à curiosidade, de um modo geral está subvalorizada. Posso-me enganar, mas sem curiosidade é-se pouco mais do que um idiota especializado, com ênfase no idiota.

 Enquanto houver livros para ler, sei que não terei um único momento aborrecido na vida. Só isto basta para lhes dever muito.

5 comentários:

  1. Descontando o pouco que há de hiperbólico na frase, não há dúvida de que ela é, digamos, 99% verdadeira! Infelizmente tenho a noção que, apesar da grande quantidade de livros publicados a que vamos assistindo, cada vez mais se radica em mim a impressão de que os portugueses gostam pouco de ler.
    Tenho a mania de oferecer livros! Pois é sempre com um travo amargo na boca que fico quando pergunto: então...e o livro, gostaste?! E ouço: estou à espera de uma boa oportunidade para o ler!

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  2. Ler é um acto introspectivo, infelizmente não parece fazer parte das prioridades de muitos. A correria do dia-a-dia deixa-lhes pouco tempo para se encontrarem com o outro ou terem diálogos enriquecedores com eles próprios.

    MJC

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  3. "A correria do dia-a-dia" é, muitas vezes (não todas, reconheço!) um falso argumento. É que, para a telenovela, sempre se vai arranjando o seu tempo!

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  4. Tinha mesmo de deixar algo mais. Digo, frequentemente, que o que me levou a ser gente foi a característica que considero mais relevante (e que tentei sempre despertar nos alunos) - curiosidade. Assim, não podia ficar mais deslumbrada ao ler a citação de Pacheco Pereira... :) :)

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    1. Curiosidade, o primeiro passo para a sapiência, aquilo a que temos de aspirar mesmo sabendo que nunca lá chegaremos... Mas alunos informados, curiosos , serão de certeza mais "gente" . Não desista!

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