junho 04, 2016

Voltar a Saramago - sempre


CARTA PARA JOSEFA, MINHA AVÓ

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua!

junho 02, 2016

Luis Sepúlveda, o velho que lia romances de amor

Numa terra chamada Idilio, lá para a Amazónia dos Shuar, existe um velho, Antonio José Bolívar, a quem a solidão ensina a juntar as letras. Diz ele que prefere romances de amor. Bastam-lhe poucos livros para lhe explicar o mundo, que o mundo que ele traz consigo é bem maior que tudo o resto.

Esta história trata do difícil diálogo entre os seres - quanto mais civilizados mais ignorantes das leis naturais, mais afastados de si próprios, menos capazes de entender o outro - quer o outro seja um homem, um gorila, uma onça , ou toda a natureza que insistimos em governar á nossa maneira, sem pensar em todos os habitantes minúsculos ou maiúsculos que ela alberga .   Neste útero, onde,nem se sabe bem porquê, fomos acolhidos pela tal suprema madre que a civilização tanto esquece, bem podíamos atentar no exemplo de o velho que lia romances de amor.


--Como são os livros de amor?
-- Bem, contam a história de duas pessoas que se conhecem, se amam e lutam por vencer as dificuldades que as impedem de ser felizes.
Nunca me tinha aparecido uma definição tão simples e tão abrangente - todo o amor é assim, qualquer que seja o seu objecto. (pg 61)

Sobre outro assunto me sinto completamente do lado de Antonio José Bolívar.

A voz do narrador esclarece:

« Os textos de história pareceram-lhe um chorrilho de mentiras. Era lá possível que aqueles senhorecos pálidos, de luvas até aos cotovelos e apertados calções de saltimbancos, fossem capazes de ganhar batalhas. Bastava vê-los de caracolinhos de cabelo bem cuidados, agitados pelo vento, para perceber que aqueles tipos não eram capazes de matar uma mosca. De tal maneira que os episódios históricos foram desprezados pelos seus gostos de leitor».

Meu querido António Jose , recupero aqui um verso de Paul Geraldy (um piegas de1913, dirão alguns amargos) - Si tu m’aimais et si je t’aimais, comme je t’aimerais.-

Quem sabe não terás sido tu, Jose Bolívar, neste livrinho há muito tempo lido e sobre o qual ficara a difusa sensação de ter gostado muito, tu Jose Bolívar e a minha rica Prof. de História do LMA, Judite Pais ( ter- se-ia ela zangado com a História  ou com as histórias que  tinha de ensinar?)- os que me levaram  a descrer de «historiadores»?

A propósito de pessoas que lêem a História como uma  Bíblia:

 «Guardado está o pecado…» via Luis Sepúlveda - Para isso é que servem os amigos. Para celebrar os dotes do outro. (pg 24).





maio 23, 2016

Vergílio Ferreira, escrevo para ser


O Caso do Sonâmbulo Chupista,  folheto distribuído  por Luiz Pacheco nos anos 70 denunciando o plágio de Fernando Namora em Domingo à Tarde (1971).  LP fundamenta a acusação cotejando textos de ambos os autores. 


Escrevo para ser, escrevo para segurar nas mãos inábeis o que fulgurou e morreu.
Vergílio Ferreira 

(...)   enquanto escrevo para segurar as horas esquivas do que fulgurou para se consumir...
Fernando Namora

 Aqui se diz que FN teria plagiado um trabalho de VF para assim conseguir  determinado prémio. Tudo levava a crer que sim - ao que parece os membros do júri teriam sido escolhidos tendo em conta essa vocação. . Mas diz-se tanta coisa...

Quer um quer outro, apenas conheço dos livros, que é a melhor maneira de nos relacionarmos com quem escreve. Com a  obra de Vergílio Ferreira me fui amigando de forma  repetida e compulsiva.Voltava muitas vezes lá.  Não , não era meu amigo pessoal, mas sentia-me perto dele, tanto quanto nos aproximamos de alguém que gostamos de ler. 
VF e aquele ar atormentado de alguns serranos.

 Quantas vezes já lhe aconteceu terem as palavras de alguém ficado presas, guardadinhas nos meandros do coração ou da mente? Pode ter sido o pecado de Fernando Namora.

 De  Luiz Pacheco,  corrosivo e provocador, guardo palavras que nos confortam  quando a  alma começa a tresler, a ser e não ser -  o que se é e o seu contrário. Como as que encontrei aqui, em Namorados, de Luiz Pacheco -  pés de sereia , pés de virgem, pés de deusa brinca-brincando na areia, patitas de centopeia.

Devem estar pr'aí a pensar,  esta gosta de todo tipo de gente. É quase verdade. 


maio 16, 2016

Nuno Costa Santos




"Praça do Império"

por Nuno Costa Santos, em 04.04.16
O que me liga à Maria João Carrilho? O gosto pela literatura, por teatro, por música, por África. A minha ligação a África é muito diferente da que a Maria João tem – ela que viveu por lá. Pisei África com os filhos daqueles que combateram do lado africano na guerra colonial. Aconteceu nos tempos da Faculdade, num projecto chamado África Renasce, que tentava compreender os processos de democratização dos países de expressão portuguesa. Estivemos em Moçambique e Cabo Verde. Nunca mais vi os meus amigos desses tempos – angolanos, moçambicanos, são-tomenses, timorenses. Onde andarão agora?
Antes de mais, nota decisiva: li o livro ao som dos cabo-verdianos Tubarões. E de Miles Davis, Ottis Redding e Joan Baez, evocados no livro. Mas mais com a melodia dos Tubarões. Combinam com a África do livro, aquela que podemos, leitores, visitar: a África dos batuques, dos camarões com piripiri, dos embondeiros, do ritmo quente sobre a terra vermelha.
Mas não estive só em África mas mesmo nessas deambulações fora do continente continuei a ouvir as mornas, as coladeiras e o funaná da banda que teve Ildo Lobo como maestro. Estive em Portugal, em França, na Alemanha. Conheci personagens como Tiago, Frederico e Raquel. Visitei sentimentos tão antigos e urgentes como o desejo de partir, de desejar o que não se sabe, o tormento de voltar e de estacionar no cinismo. O receio de se viver vidas assim-assim. A saudade de um cacilheiro africano com praia à volta. O medo de morrer e o medo de matar. Ouvi – e aqui faço uma ligação directa ao nome da editora deste livro – os sons da guerra e da paz. A certa altura faz-se uma pergunta simples e urgente: “Como é que se faz para que a guerra acabe?”. É claro que a guerra a que se refere é a guerra colonial mas é uma frase essencial que se pode aplicar a todas as guerra.


 Senti a melodia da literatura – que é disso que aqui se trata. Este livro, sendo uma narrativa, tem o tom de um poema-corrente de bonitos versos, cheios de significado. “Num frio Inverno de Lisboa, o ritmo quente de outro tempo”. “Escolheste o caminho do mar”. “A solidão é isto: desembarcar numa terra onde não se conhece nada nem ninguém”. E uma passagem que resume a condição sempre frágil da vida, sobre qual trata a melhor literatura. “Todos estamos em trânsito, todos e sempre. Não há mais nada além disso, nada”.
Atrevo-me a dizer que há: a leitura de livros como este “Praça do Império”, celebração da memória e do presente através da arte de bem escrever.

maio 10, 2016

Clarice

 Convidada a participar no Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria , em Bogotá, Clarice  limitou-se a ler uma  pequena introdução.

 – No Congresso pretendo mais ouvir que falar. –  Disse ela. 

«Eu tenho pouco a dizer sobre magia.
Na verdade eu acho que o nosso contacto com o sobrenatural deve ser feito em silêncio e numa profunda meditação solitária. A inspiração, em todas as formas de arte, tem um toque de magia porque a criação é uma coisa perfeitamente inexplicável. Ninguém sabe nada a respeito dela.
Não creio que a inspiração venha de fora para dentro, de forças sobrenaturais. Suponho que ela emerge do mais profundo do “ eu” de uma pessoa, do mais profundo inconsciente individual, colectivo e cósmico.
Mas também é verdade que tudo o que em vida é chamado por nós de “natural” é na verdade tão inexplicável como se fosse sobrenatural.

Acontece que tudo o que eu tenho a dar a vocês todos é apenas minha literatura. E alguém vai ler agora em espanhol um texto que escrevi, uma espécie de conto chamado “O ovo e a galinha”, que é misterioso mesmo para mim e tem uma simbologia secreta. Eu peço a vocês para não ouvirem só com o raciocínio porque, se vocês tentarem apenas raciocinar, tudo o que vai ser dito escapará ao entendimento. Se uma dúzia de ouvintes sentir o meu texto, já me darei por satisfeita.» 

abril 19, 2016

Leonard Cohen - Take This Waltz


A cantar e compor  desta forma deve haver muito poucos. E a ouvi-lo neste cenário , a caminho do monte que mergulha no manto azul de  nevoeiro , só eu.

Os duendes e as mágicas fadas andam por aí, mas se nos mantivermos quietinhos não se intrometem. Tenho é de andar com muito cuidadinho para não os pisar.







abril 17, 2016

agualusa




José Eduardo Agualusa, As Mulheres do Meu Pai, Dom Quixote, 2007

Para já, coragem, para chegar à última página , fechar o livro, suspirar de saudade.

Em Agualusa o difícil é perceber o que mais nos agarra – se  a miríade de personagens , todas com um passado no coração da história, na riqueza das identidades de alguns, ou a multiplicidade de viagens , enredos repletos de lugares onde gostaríamos de ter estado, ou revisitar. 

Em As mulheres do Meu Pai não quero que Faustino acabe, não quero me separar de Laurentina. Apanhei até o seu jeito de falar, quase o sotaque de Alfonsina. O que é que eu li, com que lente. Entrei na sua pele, autor, ou você é que entrou na minha? Banho quente de áfricas de onde não quero voltar, gelatina morna que não quero raspar de mim.

Mas o que é que te aconteceu? Tu estavas na estação de metro por onde foram passando as personagens, na gare do comboio, à boleia em Melembelembe, no aeroporto, no avião, em suma, em viagem. Esta nossa viagem para a vida e para a morte, esta maravilhosa viagem cheia de sound and fury, de céu-mais azul-é-impossível, ou carregado de fúrias quentes da ilha do Príncipe, de trovões moçambicanos e angolanos.

 Construíste um esquema, um projecto, numa folha A4 cheia de setas, a viagem de Karen e do outro, o cruzarem-se ou quase, com Laurentina procurando Faustino? Terás desenhado círculos, conjuntos em que construíste famílias sobrepostas que se vão repetir infinitamente no futuro (gravidezes de Lau, Bartolomeu, Maurício, filha de general N´Gola). Trata-se de uma alegoria, uma representação das famílias africanas em que até os coxos saltam a cerca? (pg. 278)?

E o que é um bom romance? Um que me faz ir á net procurar mapas de África, aos dicionários, tentar descodificar os vários linguajares africanos, um que me incita a mil perguntas, mesmo que não obtenha respostas, um que me leva a  amar as gentes e odiar as injustiças e apesar de tudo, a aceitar o mundo com a gargalhada africana.

Porque estou sempre dividida à procura de mim, no cheiro de África, na terra vermelha laranja de sangue de antepassados ,de ódios e paixões entrelaçados, sinto-me bem neste romance, como num banho de espuma.

Fica-me o teu conselho, autor “-Nada é tão verdadeiro que não mereça ser inventado” e a saudade de ser africana.

abril 03, 2016

Céu Nublado com Boas Abertas

  O Homem e a Arte , Essa Inutilidade,o título de Raul d’Andrade que citas.  Pode ser um queixume, uma ironia, mas não corresponde à verdade. A arte vale a pena, ou vale tudo. 


Não, não foi em vão que viajei por Céu Nublado com Boas Abertas de Nuno Costa Santos. 

Depois da pausa inicial por razões menores desta «vida de marinheiro»,  devorei a tua história, ou a do teu avô contada por ti. Tenho a mania de desenhar smiles ao longo das páginas dos livros que vou lendo, e olha que deixei lá alguns- devem ser as tuas boas abertas. Quanto ao céu nublado, essa coisa tão açoriana e mais que portuguesa, lá chegar foi arribar ao Porto Sentido do Rui Veloso.

 A tua escrita é tudo isso – já não lastimo não ter tido oportunidade de te conhecer melhor anteriormente, agora encontrei-te.
E encontrei também aquela ilha Terceira por onde andei enclausurada  – e até a música dos grilos nocturnos, que me encantava  –  olhava mas só ouvia, não via nada  –  no horizonte aprisionado da pista de aviação.

 Também no teu livro me perdi por histórias antigas de tios e avós que passaram pelo Caramulo e devem ter visto a neve como tu a descreves, a mesma que vi pela primeira vez numa excursão do liceu, a cair em farrapos pela Serra, num duche de luz, a enternecer os meus olhos de mágoa, se calhar a querer levar aquele milagre para casa. 

O meu tio Necas morreu no Caramulo, mas antes constituiu família, ainda resta uma primita. Esse desenhava e ajudou-me na matemática… ou no desenho? 
Lembro-me é que passava o tempo a desenhar baratas durante a aula - ele, não eu! Eu ficava hipnotizada a olhar o lápis de carvão, muito mais interessada na mão donde saíam gordas e  raivosas, as baratas, do que naquilo que ele me ia dizendo…

Conta-se que, muito miúdo, colocou um aviso na porta do quarto:

Manuel da cepa torta
  Macedo da burra morta
Carrilho do olho torto

seguido da recomendação Proibida a Entrada …


Ler também é isto- abrirem-se-nos os alçapões da memória, das nossas, quando quem escreve é capaz de patentear as suas. Ler é como conversar e qualquer minuto de silêncio fazer sentido.

março 28, 2016

livros que brilham

Muita  gente me pergunta o que é que eu leio.

 Vou-me ficar pelos mais antigos, memórias do tempo em que recebi Os Lusíadas e, feita louca, passeava pelos campos a decifrar decassílabos durante as férias, a procurar no índice a explicação para tantos deuses, e cada deus era mais uma história, nos intervalos do jogo- do-mata, pelos caminhos de Monsanto com os amigos. Se fosse hoje seria pelo menos «esquisita», como ninguém ia ao psicólogo, salvei-me. 
Vislumbres do Verão em que uma amiga, bem mais velha, me emprestou outro livro cheiinho  de cantigas de amor e de amigo e de poetas do séc. XVI. Um exemplar  de capa dura, repleto de dourados, uma preciosidade. E todas as férias  lá ia eu pedir-lho outra vez. 
Há livros que estão proibidos de sair daqui, desta sala onde trabalho, destas estantes que me rodeiam- às vezes resigno-me e lá vão os autores estrangeiros-alguns. Mas como é que eu podia mandar a Anne Frank para o sótão, O Coração das Trevas ou o Faulkner que estou agora a reler? Nem morta!

Resisto a comprar muitos livros. Tenho, como quase sempre tive, uma biblioteca pública ao virar da esquina ou muito perto. Vou lá, para não encher as estantes. Mas como resistir a livros tão belos, como este do Fernando Pessoa, que até fala de mulheres? Trata das mulheres. Ama as mulheres, diz ele, a verdade ninguém sabe nem interessa nada para o caso. Interessam as palavras como lenços de seda pura a afagarem-nos o pescoço, a abrirem-nos os sorrisos.
Como é que se explica a sensação de ter lido Lobo Antunes em 1979,Memória de Elefante, um amor para a vida, Clarice Lispector, Erico Veríssimo, Jorge Amado, Agustina, José Saramago, Virginia Woolf? Ali estão eles, velhinhos, junto de Viagens na Minha Terra. Mais acima os Agualusas, Mias , Ondjakis, Luandinos.
 Os poetas, coitados, mesmo aqui à minha esquerda, do lado do coração – da Natália ao Cesário,a Pessanha ou António Botto , Pessoa, muito Pessoa e Ruy Belo, pois claro.

A Bíblia perto deles, ou na mesa-de-cabeceira. Não, não acredito em nada, só preciso das palavras.

As  palavras mudam de cor de cada vez que as leio. E há algumas que brilham , mesmo na noite escura.

março 05, 2016

mulher


Ser mulher é a coisa mais bonita que se pode ser.




De há 22000 anos para cá bem podíamos estar um bocadinho mais à frente - termos um lugar igual a outros seres, não separados por género – como se não houvesse um dia das aves , mas apenas o dia da galinha.
 Até ver, todos os dias são nossos , das árvores, dos animais, das plantas.
 Também há o dia de finados- nem se sabe bem porquê, já pouco podemos fazer por eles, da terra não se levantam.
Ainda se percebe o dia da Solidariedade com os Povos em Luta contra o Racismo, ou o dia dos Povos Sem Governo Próprio. É muito capaz de haver menos povos sem governo próprio do que mulheres com governo próprio…
Existe o dia do Mar, da Floresta Tropical, do Desarmamento (de quem?) e o dia Mundial dos Animais.

Será o cérebro humano tão frágil que tenha de inventar estes lembretes, para que, pelo menos uma vez por ano, recupere questões deste tipo?  Ou tudo não passa de uma hipocrisia pegada a necessitar de corações reciclados?
  Não tenho nada contra cães nem gatos. Por que não festejar o dia do bicho? – nesta generalidade cabia de certeza a mulher.

Lembro-me do tempo em que o trabalho feminino era pago a preço inferior ao dos homens, não apenas nas ceifas e na apanha do tomate. Profissões consideradas «femininas» cresceram à sombra de salários miseráveis. Tudo o que se referisse a trabalho com crianças ou adolescentes era desqualificado. E quando os homens perdiam a vergonha e apareciam a ser professores , por exemplo,  as mulheres eram preteridas – uma classificação superior não contava, caso a mulher fosse a concurso  com um «chefe de família».

Enquanto não tiver a certeza de que isto não volta a acontecer, vou percorrendo o caminho de muitas contradições –  lutar por um futuro sem efemérides e  comemorar o Dia da Mulher.

 – Para todos, bom dia do monstro !




fevereiro 15, 2016

Chimamanda Adichie: há sempre um outro lado

Um das grandes dificuldades na interpretação das estórias   - gregas, trioanas, africanas, ibéricas - descobrir o outro lado. Que  seria a História  das Américas contada pelos vencidos, ocupados, colonizados? 

fevereiro 12, 2016

Arte na Mapa




Estas pedras podiam ter sido colocadas aqui de outra maneira. O grupo escultórico pressupõe uma escolha de quem as alinhou? Contém ou não uma intenção?

Para onde a Mapa nos leva nunca se sabe  –   a vantagem do improviso, de não se saber bem ao que se vai em cada tertúlia de quinta-feira.  
 Ontem, depois de textos de Alberto Pimenta e de Pedro Castro Henriques, com pausas musicais de João Paulo Oliveira, o Luís festejou - Praça do Império, obrigada, Luís!
Palavra puxa palavra, já que estávamos em África, a discussão foi alimentando a noite, sobre o Império, colonialismos . Nomeadamente a  arte africana – segunda grande paixão de um dos presentes, o Carlos, que se diz ajuntador e não coleccionador. Arte, a velha questão. – O que é que define um objecto artístico? Olhámos os quadros expostos na parede de Carmo Romão, mais uma vez não consegui tirar os olhos de um deles – a rapariga das tranças – pelo qual sinto uma atracção fatal e que terá sido executado por um dos alunos da Mapa. Entretanto a conversa ia animando por caminhos de definições .
  
Será arte?

  Alberto Pimenta compara um bom livro a um vaso de ouro que contém alimento para o espírito que tem fome e sede de verdade. Uma escultura pode ter o mesmo efeito . – Porquê? O que é isto? Para que serve? A intenção de atingir o infinito, falar com os deuses, interrogar, ainda que não tenha sido construída a pensar naqueles que se interrogarão.
 Mesmo em peças meramente funcionais não incorpora o artesão, o criativo, elementos escolhidos por ele, pelo seu modo individual de olhar e sentir?

 O meu amigo Eduardo, que fará brevemente 80 anos, mandou abrir no muro do quintal um desenho por onde a lua perpassa a horas e dias certos. Poético, não acham? Será arte?


janeiro 31, 2016

swing e tudo



Acordei hoje no século passado.

Ainda bem que já muito poucos se lembram dessa época.

  O Chiado a arder, a ansiedade da minha filha,  convencida de que as mães não choram, que são aquele rochedo que nem mares nem ventos conseguem abater,  o refúgio no abraço protector, ininterrupto.

 A Baixa de Lisboa está viva e musical- além do fado na discoteca do Carmo, o swing em frente à Lello, a temperatura a subir nos ritmos africanos cá em cima, junto à Brasileira. 


Faço uma pausa  na Basílica de Nossa Senhora dos Mártires, tal e qual como se a minha avó estivesse ali ao lado, a rezar, e eu a olhar. Descubro um santo de que ouvira contar  maravilhas, um daqueles em que elas tinham muita fé. Há quem diga que nunca existiu, outros que terá sido soldado, desses que se convertem no campo de batalha, como o meu avô em Laly

--Ó santo Expedito, não sei as palavras mágicas, mas, vá lá, quando eu morrer, dança comigo esta música...




janeiro 24, 2016

Why? - Joan Foster Silva




WHY WHY WHY WHY WHY WHY WHY ???


Why do birds fly
and fish do swim?
Why oh why!

Why do people believe in one God
And why must HE  be a HIM?
Why do those of human-kind
Believe they are the best?
And why are they mostly white " Caucasian"
Wound up in their Wonders of the West?
Why oh Why!

Why do dogs bark 
and cats do mew?
Why oh why!

Why do animals communicate in this strange way
And why do not people communicate like that  too?
Why do Human beings think they are
The greatest creatures of them all?
Just because they stand in upright posture
Claiming superiority making them so very tall?
Why oh Why!


Joan Foster Silva

Talvez só agora entenda porque nos dizíamos soul mates . Todas estas perguntas eram comuns -de -duas. Só não consigo perceber porque é que te afastaste para esse lugar silencioso sem nada teres dito. Esse lugar , quem sabe, o mesmo de que fala João Rodil.


janeiro 22, 2016

conversa amarga com Eugénio de Andrade



amargo amigo Eugénio
   
Que lástima
 ter feito a faculdade da mediocridade
 e ter ficado calada
quando a palavra poeta trazia um sorriso inclinado

ai  que muito me tarda
o amigo que não cheguei a ter
a conversa de passagem reduzida ao silêncio da conveniência
não ter gritado mais alto
prá solitária folha que ninguém chegou a ler

 – Quero ser lido e admirado, aqui. -dizes tu, meu amigo que não conheço
a quem visito as palavras quando estou só


As tuas mãos e os frutos
 e o meu fruto é ácido
como os olhares de certa gente ao ouvir a palavra poesia
sim , queria ser lida, mas não admirada por  estes que desprezo
um desprezo infinito que no dia a dia se agiganta
por na liberdade nada ter  acontecido

nem a água correu em cascata a lavar as almas
nem o fogo rebentou a carapaça da estupidez
nem a chuva levou a maledicência ou a intriga
nem dela um rio de águas claras brotou
que apagasse as pegadas das patas antigas
e permitisse a dança das asas por que tanto esperámos
o voar , o voar pelo sonho adiante e prometido

nem das nossas lágrimas se fez nenhum rio
apesar de toda a morte que chorámos
e do desejo de ter um amigo –como tu. 

janeiro 16, 2016

Praça do Império



Viagem aos tons quentes de Moçambique e São Tomé

«Marieta em Lourenço Marques a sentar-se ao piano, a abrir o sorriso numa cumplicidade trocista e a desprender toda a melancolia que não confessava. Tiago tinha trazido uma rosa-do-deserto que ela recebera no seu ar de quem não sabe agradecer o que se espera há muito tempo. – Achas que murcha?- Não, essa nunca acaba.»

Dois homens e três mulheres, num romance com os cheiros e sabores de África, são o mote para Praça do Império, de Maria João Carrilho. Uma trama amorosa, várias histórias de vida, que têm como pano de fundo Moçambique da Guerra Colonial e São Tomé da actualidade. Praça do Império é um romance de estreia de grande qualidade literária de Maria João Carrilho, que foi bolseira da Fundação Gulbenkian e do American Language Institute, serviu bebidas em Bona e burocracias em Lisboa e leccionou em Portugal e em São Tomé.
Praça do Império é o romance onde tudo se passa como se nada se passasse. As batalhas de que não se fala, os silêncios, as palavras proibidas de quem parte à descoberta de si próprio. Alguns atingirão a sua meta, outros ficarão pelo caminho ou farão grandes desvios para fugir à dor, à morte, à prisão. E se a vida só nos der respostas improváveis?

A partir de 20 de Janeiro nas livrarias.

janeiro 06, 2016

a censura matava a alma


Dê ao Diário apenas o que puder. O resto, dê-o a seus pais. – Contudo este desejo nunca foi cumprido, e ele era bem capaz de o saber quando se decidiu por aquela frase. Aos pais dá-se o que se pode; aos outros, a nós próprios, damos muito mais.
 Passei a confiar naquele livrinho fechado à chave como num ouvinte que tudo entendia. Até percebia as razões que me tinham levado de casa a pessoa que tanta falta me fazia, talvez a de quem mais necessitasse naquela idade – o que me tinha trazido o primeiro livro e os primeiros poemas franceses.
Nesta altura já eu tinha doze anos, já se percebia que não eram os desenhos, com aquela parafernália de pincéis, aguadas, instrumentos metálicos e tintas da china, nem as natações em madrugadas de frio que me iam satisfazer no futuro.

 Na edição inaugural (1968) o meu nome tinha surgido em letras grandes, numa proporção que envergonharia qualquer uma, quanto mais a mim – juro que não sei por que razão, eram vários os colaboradores- mas teriam gostado do meu poema? – Ao mar, hoje e sempre a minha obsessão, o meu consolo. Neste a censura não tocou.
 A minha mãe mantinha arquivos de  tudo – e sim, aqui encontrei numa pasta os restos de páginas- poucas, de O Jornal. Aliás, meias páginas, que para viajar não se podia carregar inutilidades. 

Há dias em que acredito em indícios de  mundos mágicos – nestes últimos tempos o que me acordava todas as manhãs era um verso muito antigo- que eu sabia que era meu, do tempo em que até as páginas de jovens aspirantes a literaturas eram escrutinadas por agentes a quem davam ordem para «matar não, só uns abanõezitos».

 Infelizmente, parágrafos deslocados, palavras apagadas,foram métodos utilizados pela censura, como aliás Rui Knopfli refere no texto que já aqui publiquei. Ao reler essas curtas crónicas, certos versos, percebo que não conviriam a muita gente. Já quase tinha esquecido, ter encontrado o mundo tão pessimista, aos dezassete.
 Não perdoei nunca o  poema truncado – magoada, silenciosa, o título andou escondido em escuridões do cérebro.
 Muitas madrugadas acordei de pesadelos de palavras proibidas – por ser negro, fome, chora. Só ontem acabei por descobrir outra palavra , uma das que tinha sido suprimida.
 O colonialismo português gostava muito dos seus negros,  não era racista, não, dizia-se – o que  não era  admissível é que eles pudessem deixar de ser pobres. O facto de terem eliminado a palavra estuda, é que me fez perceber que no-mundo-lá-fora as regras eram outras – a verdade era proibida, até porque tu me avisaste, pai – Se fosse a si nunca mais  lá publicava nada.

Antes que seja tarde, que a fortuna volte atrás, aqui fica um poema ingénuo da tal rapariguinha de quem o meu pai muito gostava.

A ti adolescente
Não chores
nem o vazio da tua alma
nem o que vai pelo mundo.
Não chores.
Procura na tristeza uma alegria
e vê na solidão- tanta beleza.
Não olhes o menino-fome
não vejas a mulher perdida
não penses naquele que não entra
porque é negro
nem no outro que não estuda
por ser pobre
e não perguntes
qual será menos feliz
- se aquele que não lê
por ser ceguinho
ou o outro 
a quem ninguém ensinou.
E quando vires morrer de frio
uma andorinha
ou quando olhares a borboleta 
de asas partidas
 num estertor 
de angústia 
não chores e nem perguntes porquê
.............................................
é o Mundo que vai a passar. 

Freud explica mas Marx não lhe fica atrás.

janeiro 03, 2016

à margem

Eugénio Lisboa , Os clássicos são um descanso.


Foi com grande júbilo que deparei  com estas palavras de Eugénio Lisboa .


 "O velho avô e o neto”  ocupa apenas três quartos de uma página (e mais uma “Nota” de página e meia). É curtíssimo, mas um forte teor de sabedoria fecunda pode acolher-se em modesto espaço... A diarreia verbal quase nunca é o melhor veículo."

No continho em questão, fala-se de “um homem muito, muito velho que ficou com os olhos turvos e os ouvidos surdos e os joelhos tremelicantes.” Dou a palavra aos Irmãos Grimm, para não estar a fazer paráfrases desnecessárias:

 “Quando estava sentado à mesa, mal conseguia segurar a colher e espalhava a sopa na toalha e deixava-a cair da boca. O filho e a nora tinham nojo dele e assim o velho avô acabou por ter de se sentar num canto atrás do fogão, e eles davam-lhe a comida numa tigelinha de barro e nem sequer a enchiam. E ele olhava tristemente para a mesa e vinham-lhe lágrimas aos olhos. Uma vez, as suas mãos tremelicantes não conseguiram segurar na tigelinha e ela caíu ao chão e partiu-se. A jovem mulher admoestou-o, mas ele não disse nada e apenas suspirou. Ela comprou-lhe então uma tigelinha de madeira por dois tostões e era dela que ele tinha que comer. Estando ali sentados, o pequeno neto começou a reunir uns pedacinhos de madeira do chão. «O que estás a fazer?», perguntou-lhe o pai. «Estou a fazer uma tigelita», respondeu o filho, «para dar de comer ao pai e à mãe quando for crescido». O homem e a mulher entreolharam-se por um momento e depois desataram a chorar.



 Não existe unanimidade no que se refere à  relação extensão / qualidade na obra de arte, nem sequer  quando falamos dos clássicos.  Somos levados a crer que a super-estrutura cultural vigente coloca os artistas não-alinhados  numa espécie de limbo, censurados ora  pela moral, ora  pela religião , em suma,  pelos diversos poderes. Aos poderosos interessa manter esse mesmo poder  –  económico, cultural, estrutural. Se por acaso ou mérito próprio algum passa da margem à fase seguinte e , abertas as portas de todos os mercados assiste à  aceitação da sua produção artística ,  comete, não raras vezes, o pecado de se auto-limitar e reproduzir o modelo esperado – entrincheira-se numa elite confortável e madura , prestes a cair de podre"

De entre os outsiders, só muito poucos ficarão na História, serão os clássicos de amanhã. Conheço alguns. Mas a História é um lugar inóspito para se viver.

 Quanto aos clássicos, estão todos mortos, e vocês, os que hoje na margem  brincam com as cores, as formas, jogam com as palavras e os sons, dançam, actuam e performam, vocês estão vivinhos da silva.