maio 16, 2018

Jorge de Sena


EM CRETA, COM O MINOTAURO
I
Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria

de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta

raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.


II
O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine,
que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da “langue”.
Irmão também de Ariadne, embrulharam-no num novelo de que se lixou.
Teseu, o herói, e, como todos os gregos heróicos, um filho da puta,
riu-lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender-me-á, tomará café comigo, enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexeremos com o dedo sujo

de investigar as origens da vida.

 III

É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.


IV
Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,
da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma. Mas café
contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer-lhe do queixo de boi
até aos joelhos de homem que não sabe
de quem herdou, se do pai, se da mãe,
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos,
imensamente patrióticos.


 V

Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

maio 04, 2018

vitória, vitória, acabou-se a história



Completamente,absurdamente só.

Deixei personagens e lugares,razões e desrazões para suicídio prematuro. Deixei-os no silencioso papel que se abre neste ecrã. E todos os dias lá volto, ao título ,às palavras,cuja janela fecho de seguida,já que me proíbo de lhes dar crédito.
 - Não quero nada convosco, usurpadores de mulheres,tarados, reincidentes de paixões antigas. Matem-nos,  afoguem-nos nesses mares de fonemas, lexemas e silêncios que tais! Que um fonema por si só não passa de um ímpeto de silêncio a quem roubaram sentido.  


março 06, 2018

O dia em que não haverá dia da mulher





Aqui há uns anos teria sido a primeira a lançar-me à tarefa. Dizer-vos coisas sobre o dia da mulher. Mas são tantos os dias para comemorar = lembrar, não esquecer ... 
 O dia do homem sem pão, da criança sem casa, da viúva de guerra, do doente sem cura,  das palavras não-ditas, dos panfletos não escritos, das bandeiras rasgadas, das batalhas perdidas, da melancolia sem lágrimas. 

dezembro 29, 2017

As bibliotecas de Helena





As Bibliotecas Municipais são uma porta aberta para a cidadania activa, palavras de Helena Abreu em Trinta Dias .

Alguns já terão dado conta do meu gosto por Bibliotecas.  Largas horas devo ter passado na sala de leitura da Faculdade onde me deixavam vasculhar livros antigos , daqueles que não era permitido levar para casa. Muito mais cedo me tinha viciado em Bibliotecas - das  itinerantes , como a dos jardins do Mouchão,  durante as férias grandes  em Tomar, às bibliotecas dos Liceus - em Oeiras, no Maria Amália ou no Liceu Salazar. Mas nenhuma delas me fez esquecer a  do meu  Bairro,em Sete Rios.
  A moderna Biblioteca de Oeiras  , bem mais confortável que a antiga --   onde levava a minha filha, ainda  ela não sabia ler, a requisitar livros para as férias grandes --   é uma casa viva. Tudo ali pode acontecer.

 No Portugal «desfavelado» – Haja deus! Grande  parte dos jovens, não terá memória dessa paisagem de bairros de lata que rodeavam Lisboa -  do aeroporto, à cidade universitária e se estendiam pelos arredores –. Mas infelizmente que las hay, las hay ! Há quem precise de, como Carolina, no barraco sem água e sem luz, acordar de noite para ler e escrever à luz da vela.

Por isto e muito mais, as palavras de Helena Abreu valem. É que nem toda a gente consegue aliar a simplicidade  à importância do assunto. 


dezembro 06, 2017

Trumpalhices





Ao toque de saída corríamos que nem loucos pelos corredores, atravessávamos os pátios até ao arvoredo que ainda hoje circunda o Liceu e ocupávamos a árvore que nos pertencia.  Deve ter sido numa dessas fugas que ia abalroando a prof. de Ciências Naturais, a avantajada senhora que percorria os corredores carregada de pastas.

Naquele tempo brincávamos às guerras.  Eu escolhia ser índia. No meu cói, a árvore mais alta junto ao gradeamento, guardava armas imaginárias – arcos e flechas múltiplas além de penas para os cabelos. Estes símbolos de força da tribo  protegiam-nos dos meliantes ,os cowboys.

Que lástima não ter conhecido Donald Trump nessa época – ele era bem capaz de ter sido meu inimigo, de ter inventado pedras da calçada para desfazer as minhas penas, podia até ter deixado marcas ensanguentadas no pescoço de alguns – mas a catarse do predador, do guerreiro, trataria de o curar –  para que o mundo amanhecesse em paz. 

setembro 07, 2017

O Padre era nazi!




 Mon Peuple, de Abba Eban .  

 Un Institut du Christianisme national socialiste fut chargé de démontrer que Jésus n’était pas d’origine juive, pg 304 , cap. XX , O Holocausto.  Abba Eban esclarece que «coube a um Instituto do Cristianismo nacional socialista demonstrar que Jesus não era de origem judaica». E prossegue – «Uma equipa de juristas, psicólogos e teólogos meteu mãos à obra para libertar as tradições religiosas de qualquer traço de influência judaica».

Cristo deve ter sido um tipo porreiro, uma boa pessoa. A verdade é que não terá inspirado o senhor padre - cujo nome nem sei –  que me fez o exame do primeiro catecismo e que ficou muito zangado quando  lhe respondi que Jesus Cristo era judeu. Já nessa época gostava de ler coisas para além das cartilhas. Lixei-me. Chorei durante dois dias – afinal não era a menina inteligente que diziam. Nem sou. Essa foi apenas a primeira desilusão.

 Não é que estou mesmo feliz? O que é que pode fazer mais contente uma pessoa do que, muitas décadas vividas, verificar que estava certa, ou que, pelo menos um ser pensante tinha chegado à mesma modesta opinião?  Alguém que escolheu a sinceridade quando decidiu afastar-se da hipocrisia de uma religião que veicula as verdades históricas que lhe dão jeito, que alardeia ser a favor dos pobres conseguindo o milagre de se ter tornado mais rica do que toda a gente? 
 - Ai Cristo, Cristo, vem cá abaixo ver isto! Assim se lamentava um amigo que já lá está, no Paraíso das suas cinzas, a adubar qualquer pedacito de terra.


junho 16, 2017

Álvaro de Campos - meu secreto conselheiro

Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção. 
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado; 
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa! 
Vou fazer as malas para o Definitivo, 
Organizar Álvaro de Campos, 
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre... 
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei. 
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir... 
Produtos românticos, nós todos... 
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada. 
Assim se faz a literatura... 
Santos Deuses, assim até se faz a vida! 
Os outros também são românticos, 
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres, 
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar, 
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos, 
Os outros também são eu. 
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente, 
Rodinha dentada na relojoaria da economia política, 
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios, 
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida... 
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela, 
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela, 
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica. 
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar, 
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando, 
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta, 
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema... 
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...
 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 

maio 11, 2017

Baptista Bastos

Ao ter conhecimento da morte de BAPTISTA BASTOS imediatamente peguei num dos seus romances que já li não sei quantas vezes e que considero o melhor dos seus livros de ficção. Refiro-me a NO INTERIOR DA TUA AUSÊNCIA. Curiosamente quando abri o livro, deparei com esta nota de abertura. Trata-se de uma frase de Séneca numa das suas cartas a Lucílio, que não podia vir mais a propósito no momento infeliz que estamos vivendo. 

"É um erro imaginar que a morte está à nossa frente; grande parte dela já pertence ao passado. Toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte!"    


Anibal Pereira

maio 07, 2017

Paula Rego, Branca de Neve brincando com o troféu do seu pai



Era uma vez ,


Três lindos meninos, cada um de sua mãe que em conjunto se sentiam todos do mesmo pai.
Quando o pai começou a ficar velho e doente decidiram contar-lhe histórias para o desentristecer.

Começou assim  a mais novinha, de olhos da noite escura e terna . -   Era uma vez uma menina gorda que muito amava o seu pai. Para ele, ela era a mais linda , a mais inteligente e a mais terna menina do universo. E a menina começou a ficar cheia de si, cheia , cheia, nem cabia em si de contente, dizia-se.

Um belo dia o pai voltou a casar, como era seu hábito, e arranjou-lhe mais uma madrasta. A menina que já estava farta de madrastas, novas, sim, novas madrastas e madrastas novas, até mais novas e quase mais bonitas que ela, começou a pensar o que havia de fazer.Pensou, pensou e se bem o pensou, melhor o fez.

A menina tinha um namorado chamado Rui. Este Rui aparecia lá em casa pela hora do chá, por vezes um pouco antes, para conversar um bocadinho sobre livros, animaizinhos de estimação, o que haviam de fazer quando fossem grandes, qual o colchão que haviam de comprar para a sua cama e de que cor haviam de escolher os cortinados do quarto. Um dia ele perguntou-lhe -  quantos filhos quer ter, minha pequenina? Ao que ela respondeu "um casalinho, pois então”.E desceram para lanchar.
 A madrasta tinha preparado deliciosas miniaturas de amêndoa e torradas com muita manteiga. Rui elogiou os bolinhos , a cor e o sabor do chá. A madrasta até tinha posto na mesa um frasquinho de Rum Kandis - açúcar mascavado embebido em rum e baunilha . 
 Aromas de especiarias e o chá macio e doce.
 O rapaz pediu que lhe abrissem a janela, a estação aquecia . A madrasta emprestou-lhe então o leque vermelho comprado numa excursão a Sevilha.
A rapariga oferecia mais chá a que juntava as pedrinhas com sabor a rum que crepitavam no líquido quente, como se um ferro em brasa tivesse caído na neve.
Vai mais um bolinho de amêndoa, Ruizito? Isto é que está um calor, queixava-se a madrasta. Deixe-se estar meu amor, eu ajudo a levantar a mesa. A rapariga , que sim, que  tinha de ir para cima copiar um textinho para a gaja de português.E lá foi.

A cozinha era para lá de um estreito corredor. O rapaz transportava as chávenas usadas , o bule e os pratinhos num tabuleiro redondo de charão. Ora toda a gente sabe que não há nada pior para transportar estes utensílios que um tabuleiro de charão redondíssimo que mal cabe no corredor. Vinha a madrasta recolher os talheres e a toalha , ia o rapaz com toda aquela traquitana nos braços, vai daí e chocaram . Enorme estardalhaço no corredor escuro.

A menina estranhou, mas deixou-se ficar com aquela interrogação ao canto do olho, que tanto intrigava os mais velhos. Silêncio, esperou para ver. Nada, absolutamente nada. Tinha mas era de se concentrar nos seus trabalhos de casa. O tempo espreguiçava-se no calor da tarde. As orelhas da menina quase pareciam umas orelhas de burro, de tanto quererem ouvir o silêncio. Sustinha a respiração , suspendia o gesto. Ficou assim durante muito tempo, meia hora, talvez.

Ouviu o portão do jardim. Era cedo , não podia ser o pai, faltavam cinco minutos para ele chegar a casa. Mas não faltavam. A partir daí a menina recusava comer a sopa a não ser que a  deixassem sentar-se à mesa exibindo o troféu do seu pai.



Moral da história:

As madrastas não devem servir chá aos namorados das enteadas perto da hora da saída dos escritórios.