janeiro 24, 2012

A última crónica de Pedro Rosa Mendes e a sopa da mafaldinha


 

 Querida Mafalda

Fui buscar-te porque me apetecia rir; ou pelo menos sorrir, como quando te ouvia falar da liberdade e das susaninhas do sistema. Naquele tempo eu ainda não tinha nem uma, nem outra.
E fui dando a volta ao texto, ao ponto de ter visto a liberdade e ter conhecido uma susaninha em tudo diferente da tua. Até parecia que o antigamente não tinha passado de uma miragem, o ter vivido num mundo sem liberdades e com muitas susaninhas. Mesmo isso eu teria exorcizado.

Mas hoje tive saudades tuas, mais por via do pedro rosa mendes e da raquel freire. É desta, desta vez é que é, 1984, o Big Brothersilenciamento global, como a nossa querida recessãozita, global, mundial, planetária, mas à maneira a que fomos habituados – o silêncio e a fome dos que não “ se adaptarem”, não contemporizarem, dos que tenham a ousadia e a parvoíce de continuar a inventar fantasmas, agitando as bandeiras serôdias da ética, dos direitos humanos, da fraternidade, tudo coisas ultrapassadas, dirão eles, coisas que já provaram não servir a lógica dos mercados.

Hoje estou mesmo down, mafaldinha. Embora partilhar esse pratito de SOPA?




janeiro 23, 2012

se calhar devíamos deixar de perder o nosso tempo a alimentar este clima de intriga e pegar o boi pelos nomes

 Sonhei que era a  Maria Mendes  , lá  para os lados de   Paderne, que nos idos de novecentos, eu, a Maria Mendes , me teria perdido de amores por um algarvio ,  e que a esse chamamento da carne e da alma a que os mais românticos chamariam paixão e os menos pecadores, os  de sotaina,  devassidão, libertinagem, podridão.

Mas  eu era a Maria Mendes e tinha já uns olhos transparentes e uma blusa florida além de umas pernas quentes sob a saia rodeada. Via-me numa noite de baile mandado a ser bem ou mal, mandada, pois, e a consentir. E a ir , numa relationship, num tempo sem facebook- antes-pelo-contrário-  nesse tempo ou tinhas sido enganada e eras uma concubina, ou não o tendo sido o eras na mesma. E tu a criares a Mariazinha o melhor que sabias , a tratar-lhe das febres e das varicelas, mas a seres não mais que a madrasta, aquela com quem o pai dos filhos se deita no pecado. E a não poderes comungar na missa, que vives amancebada e em pecado mortal.

 E nos idos de novecentos e tais, a Mariazinha já criada,   que ao tempo não seria mais que a namorada  do senhor doutor, que era o que eram as discretas obedientes noivas dos senhores doutores . A Maria coitada, a querer fundar uma próspera família, a desejar dar aos filhos o que ela não tinha tido, a haver de subir na vida. A Maria, o arrimo do seu homem, por quem tudo sacrificaria, a bem da nação, a bem da família. E o senhor doutor , coitado, a ter de assinar uns papéis para os senhores da nato, como muitos de nós tiveram de fazer , afirmar ser fiéis à pátria em papéis azuis em troca de um lugar, se  o nosso nome não tivesse ainda sido inscrito em dossiers da António Maria Cardoso.

E vai o Senhor doutor, com tantas recomendações da sua Maria, que não falasse da outra a tal Mendes , a ser mais papista que o papa, a acrescentar uma notazinha de pé de página, pois claro, não fosse o diabo tecê-las.

  E eu no meu sonho, a querer chamar os bois pelos nomes , aqueles que já na escola primária apontavam  à  professora – foi aquela menina , minha senhora, foi ela.

 
 Vozes da criançada,  filhos, netos e sobrinhos me invadiram a casa . Gritavam em espanhol, vá-se lá saber por quê,  liberdade ou morte !

 
E então acordei.

janeiro 19, 2012

Nós não merecemos um ministro tão grande assim…

 Só encontro gente a falar em stress e com  sintomas depressivos.

 De, Entre as brumas da memória, este momento do nosso quotidiano cada vez mais hilariante .


   Aqui registada a minha última vontade- Um padre e um pastel de nata, por favor.

janeiro 09, 2012

talvez poema

pobres mulheres da minha terra
sempre à espera
à espera que ele chegue da guerra
ou que suba a escada para o almoço
que à noite se deite na cama
que no chão cresça de novo a erva húmida
que voltem os cansaços

pobres mulheres da minha terra
a olhar a alcatifa podre
e cogumelos no bafio dos cantos
em vez de flores

pobres mulheres da minha terra
 sempre à espera
do roçar da chave na porta

pobres mulheres da minha terra
a deixar crescer o olhar morto
a envelhecer o sorriso
de lábios descendentes num rito conformado

pobres mulheres da minha terra
a arrastar crianças pela mão
em choros convulsivos
e elas sem poder

pobres mulheres da minha terra
a dizer sim e a pensar não
a permitir no silêncio
os pequenos ódios do amor

e no entanto elas morrem
e já não esperam

então por que choram eles?