abril 26, 2012

o silêncio , cavaco


O passeio habitual pela avenida abaixo, desta vez quantos somos , os cravos venderam-se todos antes das 2 da tarde. Gostei do discurso do seu camarada, parabéns, muito obrigada.

Olho a expressão entristecida de muitos, estou aqui, mas no limite, não tenho palavras, é o que me dizem os seus olhos, os fatos encharcados pela chuva, as lágrimas do tempo desta hora, a nossa única aliada.

Os slogans habituais gritados na voz que nos resta, caminhando e andando somos todos iguais, não era assim a cantiga? Nós, os que temos quase tudo, os desempregados que insultam os senhores do dinheiro, os jovens precários que vão improvisando palavras de ordem sobre o que não comem quando a conta no banco fica  a zeros.

 A mensagem que a discreta rapariga distribui em minúsculos papelinhos do tipo das quadras populares dos vasos de manjericos, pede silêncio, às 16.30. E pergunto-lhe porquê, será algum minuto de silêncio por alguém que não vai estar mais presente. Que não fala português, que isso não é problema, falamos noutra língua. Percebo, os silêncios são também uma forma de comunicar, percebo o seus múltiplos significados e a sua utilidade quando é preciso calar para ouvir o outro, para pensar, mas aqui, neste momento não podemos silenciar o que nos vai na alma. Ela concorda e olha insistentemente o relógio, são 16 e 30. E eu a pensar como é que havia de traduzir o poema do tal poeta timorense, Fernando Sylvan, pedem-me um minuto de silêncio, nunca me calarei, ou como é que havia de dizer em inglês que, ruído, tinha sido o vómito putrefacto de cavaco, nessa manhã. 

 
A sorte é que ninguém se calou.

abril 21, 2012

salazar , o medo


um namorado, um pai, um irmão, um amigo na guerra, não havia quem não tivesse. o maior medo era o da morte. voltarem estropiados do corpo ou da alma, não nos ocorria assim tanto. medo de comprar certos autores, certos títulos, ou de os vender, o livreiro olhava-nos nos olhos, venda, que eu não digo nada a ninguém, mas ele ficava-se por ali, medo de que fossemos da pide, não temos, não. medo de publicar o que escrevíamos, podiam não gostar de nós, pior ainda, cortar, cortar, cortar, silenciar o pensamento. medo de ir ao médico, podíamos estar grávidas e ter que decidir abortar em segredo. medo de falar, que as meninas decentes não existiam para ter ideias, medo que o nosso pai fosse preso, uma vergonha, que o nosso irmão desertasse ou se perdesse pelos montes cheios de neve antes de chegar à fronteira. medo de ouvir conversas, quanto menos soubéssemos melhor. medo de quem entrava na nossa casa, à despedida podiam puxar de um cartão-de-visita, se precisar de alguma coisa, por baixo do nome, a sigla, pide- dgs, como se não fosse nada.

no limite do medo, quando a mordaça ameaçou matar-nos e nós decidimos viver, dando a própria vida  caso fosse preciso, muita gente se juntou, para que nunca mais houvesse medo.

abril 19, 2012

es.co.la fontinha


 


Quantas vezes criticamos a "inércia" de certos jovens, o egoísmo de muitos.

Em alguns está presente, por nossa culpa, a genética do medo. Noutros, não.

 Não conhecendo por dentro este projecto, não me parece ser esta a forma  correcta de lidar com gente  que   se propõe  trabalhar para o bem comum , tendo em mente o  bem estar social e a cultura.

A jovem que vi tem toda a razão- hoje  é o 24 de abril

 ler aqui:


«Que tenham vergonha, porque estão a despejar um projeto pacífico de intervenção social, de intervenção comunitária, que envolve as crianças, os jovens, os adultos e os idosos do bairro», disse, esclarecendo que o que era feito na escola não passava de apoio educativo, mas também havia música, yoga e muitas outras coisas.