outubro 23, 2011

portugal sacroprofano

Portugal paralisado, o presidente a perder a fé, o álvaro , o gasparzinho, tão querido parece um bichinho, os jornais, os telejornais, as esplanadas e os cafés, a dívida, a crise, a percentagem, o subsídio, o natal, que daqui a pouco já nem há, nem as crianças senhor, a viver essa fantasia.

Procuro na estante o Homem de que fala o Poeta , os poetas que falam dos homens que valem a pena, alguma cura para o meu desalento.

É que os poetas sabem sempre dizer o que nós queremos ouvir. Percorro o homem de palavra(s). Só porque é mesmo isso que preciso – um homem de palavras, que seja também de palavra.

Vou virando páginas, Os estivadores, não, não me lembro deste. A mim de ruy belo tinham-me ficado na alma , as claras raparigas, o mar, a água e a morte, e sobretudo , esse abandono de deus. Na época, era o que eu queria ler, sim.

Cá está - A esperança que mate esta fome. - “ da vida em que seus gestos principia” conta ele dos “ que compram com o suor a claridade” , garante-me que a natureza é certo muito pode/ mas um homem de pé pode bem mais .

Contudo, o telefonema, e o recado, nem sei se te conte, podes ficar chocada. Um acidente , pergunto eu . Os gémeos, mãe, 22 anos, amavam a música. Não, não tinha sido um acidente, decidiram acabar , os dois juntos . A realidade a suplantar qualquer ficção.

Galopo as páginas com fúria. Poeta , espera por mim. E ele responde-me:

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em Dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas- feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo e do algodão- em - rama
das muitas procissões dos contraluz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde


Mentira, o lugar onde o meu coração se esconde, fica hoje aqui, neste poema, no Portugal Sacroprofano, de ruy belo.





























outubro 05, 2011

a república de teixeira gomes

Este 5 de Outubro encontrou-me a ler Teixeira Gomes, por quem me tinha apaixonado nos tempos de estudante.   Impossível não ficarmos  presos  à forma como  vivemos ,com David Mourão Ferreira, Gente Singular.

Desta vez descobri  nos saldos da Bertrand as Novelas Eróticas. Tanto quanto podiam ser eróticas  em 1935, estas  histórias de encontros ,apetecia dizer affaires, entre o autor, o gentleman que sempre imaginámos e belas  mulheres escaldantes.

 Era bem capaz de , à maneira de Woody Allen  em Paris, partir  para uma nostálgica viagem,  por uma Lisboa dos anos loucos de novecentos    e   conversar  com este presidente, e  viver com ele  essa curta utopia. Em Dezembro de  1925,  se ele me convidasse ,  não hesitaria  em embarcar no tal paquete Holandês , rumo  à Argélia.

Como encontrei aqui" Manuel Teixeira Gomes
 todas as noites jogava às cartas com o seu secretário. Quanto a mim acho-o um Corto Maltese (com mais uns anos) que passa pelo Palácio de Belém até concluir que uma tarefa não era para ele." Diria "A política longe de me oferecer encantos ou compensações converteu-se para mim, talvez por exagerada sensibilidade minha, num sacrifício inglório.

Dia a dia, vejo desfolhar, de uma imaginária jarra de cristal, as minhas ilusões políticas. Sinto uma necessidade porventura fisiológica, de voltar às minhas preferências, às minhas cadeiras e aos meus livros. (Do Prefácio do livro de Joaquim António Nunes "Da Vida e da Obra de Teixeira", 1976)