outubro 30, 2010

AHHHHS! e as artes







“Benedetto Crrrroce! Ahhh!” grito de guerra da Professora Irene de Albuquerque que nós, imberbes criaturas acabadinhas de chegar do liceu, invariavelmente recebíamos com risadinhas de adolescentes parvas.

O que é arte? Pergunta tantas vezes repetida antes e depois de Croce. Segundo ele, a arte leva o sujeito (ou hei-de chamar-lhe vítima?) a reagir.

Se o urinol de Duchamp foi arte, ainda o será? Depende de quem depara com o objecto no meio da rua ou em qualquer corredor de galeria. A pedrada no charco, o precursor de muita coisa, terá sido. Acreditamos que existe no homem uma centelha de divino, e que ela está presente em cada acto criativo. Quanto mais o artista provoca no seu interlocutor o tal Ah!, mais ele está próximo da arte.

O objecto só é considerado arte em ligação com o sujeito que o apreende, depende do dia e da hora em que aquele se encontre com o objecto .

A vista de uma paisagem de bruma sobre um monte alentejano pode trazer um aperto no peito; a luz do luar na noite quente, um quase desvanecimento, a lassitude; as primeiras neves do ano, o olhar desfocado e húmido; e a respiração suspende-se junto ao ribombar da grande cascata.

Um urinol não passa de um urinol, pode ser inusitado ou até conter a tal mensagem que muitos incessantemente procuram na arte – “Nós urinamos, não passamos disso.” ou “Urino ,logo existo”.Provoca um Ahhh! `a Croce.

Mas existem outros tipos de ahhhs! O do basbaque, o do saloio a quem impingem uma performancezinha à maneira: uma sala vazia ou uma gaja encostada à parede durante 24 horas, - Cá eu preferia ir a Fátima, mas então…- O baboso ah! do crítico a quem pagam para ser intelectual e inventa termos elogiosos para descrever o indescritível (já inventariei alguns), o ahhhh! do subsídio, dos famosos, das cortes de boys e girls; raramente somos confrontados com gestos (1) de coragem, tipo “ Ah! O rei vai nú!”.


E por que via é que a arte se torna um objecto de consumo? Não tenho gráficos que o comprovem, mas menos pela unanimidade e mais pela polémica. Questões e memórias a propósito do que li .


(1) To the question, “ What is art?”, one could reply in jest- and it would not be a foolish retort - - that art is something that everybody knows about . Benedetto Croce.

outubro 09, 2010

Agarrem-me senão eu mato-o!











Os mercados estão nervosos, acalmem-se os mercados !

Sr. Durão Barroso, escrevo-lhe esta carta porque acabo de ouvir o seu apelo desesperado. Que o aprovassem (ao orçamento) para que se acalmassem os mercados.


Ia eu a subir a Calçada da Estrela , faço umas horas ao sábado de manhã ali para os lados do Quelhas, falando com os meus botôes – mas quem são eles, os mercados? Para mim um mercado é um local onde se merca, mercanceia, em suma um comércio, de frutas ou copinhos de vinho, nalguns até se arranja uma sandezinha de chouriço a bom preço. Fazem sandes, tiram bicas e vendem-nas. Ponto final.

Meto-me no elevador, de balde de plástico , esfregonas e detergentes e não consigo deixar de pensar naquilo. E o que é que os mercados venderão? Para serem tão importantes devem vender coisas para ricos…automóveis? Hotéis com Spas, gasolina? Com quem é que eu poderia esclarecer as minhas dúvidas?
Quando cheguei cá acima ao escritório do Senhor Professor liguei a televisão. Estava a dar aquele senhor do Bloco que sabe muito de História. Com este não vou lá, não entendo o que ele diz, pronto! Ao menos o Sócrates toda a gente o percebe, ainda ele não acabou de falar já se está mesmo a ver que se trata de uma cabala, que o querem é lixar, que estamos muito melhor do que andam para aí a dizer, que até vamos embolsar em receitas de impostos o triplo do que eles tinham previsto (será que se enganaram nas contas?).

Isto é tudo muito complicado, como diz o meu patrão, pois se lá em casa, com tão pouco dinheiro é o que se vê, imagine-se com estes milhões todos. Já está. A secretária do Senhor Professor, tudo limpo sem ter tirado um único papelinho do sítio, como ele gosta. Agora vamos aos sanitários. Quando voltei ao gabinete e mudei para a TVI ,estava então a dar aquele Senhor, já de idade, o que se exalta muito. Que não passava de mais uma crise do capitalismo, o capital financeiro, será que percebi bem? Parece que eles vendem dinheiro… Ah!!! Falta o vidro da janela grande. Vamos buscar o escadote. Mas se eles vendem dinheiro, isso deve dar muito lucro, andam com as notas de um lado para o outro…. Pelos computadores! Nem precisam de as carregar num saco daqueles para assaltar bancos, que não dá jeito nenhum! UPS! Quem quer bons empregos arranja-os…

Espera aí, parece que o problema é que os mercados estão à beira dum ataque de nervos, lá está o bonitão a falar, e a Manuela, amigos outra vez? Se ao menos houvesse aqui um jornal velho para polir a vidraça, - raisparta, já nem aqui usam jornais… Não nos querem emprestar dinheiro, não têm confiança em nós. O que é que eles fazem com os juros que vão recebendo? Ah, vamos com calma, se calhar ouviram essas intrigas que andam para aí, que o Sócrates é um aldrabão, que gasta o que não tem em jantares e festarolas, ouviram falar do Freeport, dos submarinos, dos polícias a quem não compram algemas e por isso é que não está tudo preso…
Oh, Sr. Durão Barroso, explique-me lá o senhor, que até já foi amigo da classe operária e de quem como eu tem que fazer uns biscates para pôr comida na mesa (ontem o cação estava a 10 euros o quilo!). Porque é que temos que aprovar o orçamento para o governo não cair?
Porque se cair vão para lá outros da mesma pandilha, ou de um gang vizinho?


E nã haver uma alminha que fizesse começar tudo de novo. Estamos f……framed, nós e o Roger Rabbit.