maio 03, 2014

mãe



olha, mãe, aqui na terra tudo bem. os homens continuam a mandar no mundo e as mulheres em casa. espero que estejas a gostar dessa experiência aí em cima, imagino-te rodeada de anjinhos papudos e oiço as tuas gargalhadas cristalinas se os meninos te acordam de manhã em voos malandrecos por cima da cama. Mas isso nem sempre acontece, varia com as fases da lua e há luas em que acordas pensativa, não encontras o juízo de deus, nem da mãe dele. Os anjos parecem abandonados à sua sorte, pardais selvagens ao deus dará. 

Olha mãe, sim, cada vez há mais mulheres a ter opinião –como se antes não tivessem –  nos partidos , nos governos, mas não voltámos a ter uma mulher como a Pintasilgo.Mesmo nas empresas, que é onde agora tudo se decide, muitas trabalham mas poucas determinam seja o que for. E quanto toca a despedimentos, são as mães e as grávidas as mais vulneráveis.

Tinhas razão, foste um belo exemplo de low profile, toda a gente pensava que quem mandava era ele. As tuas opiniões sobre a vida ou a polis não ultrapassavam as quatro paredes da casa ou da cozinha. E sempre muito contida, com aquele quase encolher de ombros e olhar para dentro – deixa-os pensar que sabem tudo.

Olha, o dia da mãe já nada tem que ver com a tal senhora da conceição, calha até bastante mal, imediatamente a seguir às celebrações de Abril e ao Dia do Trabalhador, mas alguma coisa melhorou em relação às mães  – os filhos adoram-nas, as suas mãezinhas são o melhor do mundo, como dantes, mas eles não se inibem de o dizer a toda a hora . E eu também não, como vês. Vale mais tarde que nunca.

3 comentários:

  1. Que comentário mais adequado do que o de Eugénio de Andrade neste belo Poema à MÃE:

    Poema à MãeNo mais fundo de ti,
    eu sei que traí, mãe
    Tudo porque já não sou
    o retrato adormecido
    no fundo dos teus olhos.
    Tudo porque tu ignoras
    que há leitos onde o frio não se demora
    e noites rumorosas de águas matinais.
    Por isso, às vezes, as palavras que te digo
    são duras, mãe,
    e o nosso amor é infeliz.
    Tudo porque perdi as rosas brancas
    que apertava junto ao coração
    no retrato da moldura.
    Se soubesses como ainda amo as rosas,
    talvez não enchesses as horas de pesadelos.
    Mas tu esqueceste muita coisa;
    esqueceste que as minhas pernas cresceram,
    que todo o meu corpo cresceu,
    e até o meu coração
    ficou enorme, mãe!
    Olha — queres ouvir-me? —
    às vezes ainda sou o menino
    que adormeceu nos teus olhos;
    ainda aperto contra o coração
    rosas tão brancas
    como as que tens na moldura;
    ainda oiço a tua voz:
    Era uma vez uma princesa
    no meio de um laranjal...
    Mas — tu sabes — a noite é enorme,
    e todo o meu corpo cresceu.
    Eu saí da moldura,
    dei às aves os meus olhos a beber,
    Não me esqueci de nada, mãe.
    Guardo a tua voz dentro de mim.
    E deixo-te as rosas.
    Boa noite. Eu vou com as aves.

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  2. http://youtu.be/NVndAB7gmXY

    Poema à Mãe - Eugénio de Andrade

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  3. Apesar de já ter passado há uns dias, é sempre tempo de ouvir este poema de Almada Negreiros. http://youtu.be/skjShEuqs1o

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