fevereiro 27, 2015

Ruy Belo - Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir.



  As palavras deitadas à terra não são mais que o húmus que outros farão crescer- os que bebem as palavras e as deixam renascer.  

                Nasceu no dia de hoje, 27 de Fevereiro, mas, como aqueles a quem se ama e que todos os dias nos habitam e em quem procuramos alento, um calor de alma, o dia do seu aniversário é tão importante como todos os outros, que são muitos os dias em que nos apetece abrir passagens para a morada do poeta e pedir-lhe conselho.

Hoje bato à porta da página 367 de Ruy Belo, Todos os Poemas , Transporte no TempoBreve Programa Para Uma Iniciação ao Canto (ed. Assírio & Alvim).
   «A poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis (…). O poeta deve surpreender-se e surpreender, recusar-se como instituição, fugir da integração, da reforma que até mesmo pessoas e grupos aparentemente progressivos lhe começam subtilmente a tentar impor o mais tardar aos trinta anos.» Ruy Belo prossegue « (…) o poeta denuncia-se e denuncia, introduz a intranquilidade nas consciências, nas correntes literárias ou ideológicas, na ordem pública, nas organizações patrióticas ou nas patrióticas organizações.»

 «Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir. (…)».

Vale a pena virar a página e perguntar-lhe – mas afinal o que é isso de ser poeta? Que fazer? Diz-me ele que «fala do poeta e não do poetastro, do industrial e comerciante de poemas (…)», que fala do homem «que constantemente se sublevou» do que «imolou o coração à palavra» e «fugiu da autobiografia». 

Sim valeu a pena ter virado a página, para a 368, já que agora te encontro, se não finalmente pacífico, ou talvez sim, que tu tiveste sempre os olhos postos no futuro e também sonhaste com amanhãs de mais justiça. E encontro-te como querias «finalmente tranquilo» «finalmente senhor e súbdito do silêncio que em vão tentaste aprender com as palavras». As tais que adubaste com o teu «corpo merecidamente morto e sepultado».

Não, não foi em vão, tu és mesmo senhor e súbdito do silêncio que aprendeste com as palavras. O silêncio onde cada palavra se move. Qual a medida certa para o silêncio? Quantos gramas de silêncio para a palavra «casa», para a palavra «país», para a palavra «liberdade»?
E ninguém ainda conhece a tua fórmula. – Qual a tua medida de silêncio, o peso exacto, para que uma palavra nossa possa ser escutada como as tuas?

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