janeiro 17, 2010

Locke e as laranjas do sr.António

Como gostaria de saber em que momento da História e  sob que infeliz circunstância se terá o homem visto obrigado a dividir o universo, a inventar regras para a utilização dos bens/ valores/ terra/ar a que temos direito .

A propriedade  é de todos ou  individualmente se divide independentemente de cada necessidade? 

 Ora isto tem tudo a ver com as laranjas do senhor António, ele plantou as laranjeiras no quintal que, por ora, é nosso. Cuidou delas durante muito tempo. Não deveríamos  considerar, pelo menos, que as laranjas não são nossas?  Teríamos talvez direito a algumas  enquanto tratássemos delas.
A realidade é que a terra não nos pertence, usufruímos dela por um incerto período de tempo.  Na verdade, trocámos o quintal por trabalho.  Bastar-nos-ia prescindir dele depois de morrermos. Terá  provavelmente sido esse o passo em falso,  desejar que os nossos filhos visitassem os mesmos lugares , que ali  procriassem e deitassem semente.

Este pecado ou exagero de querer o homem eternizar-se, como deus, de não ser capaz de abrir mão da sua vontade,não se coibindo de ditar  o caminho dos "depois si"... Mas depois de si, ele já era.  E  que gerações de mimados e egoístas ! Gente que tudo recebeu  sem nada dar em troca, nem , por vezes , ou cada vez menos, a ternura e o respeito, o amor que os velhos ,isso sim ,gostariam de ter.

Não imaginaste ,pois não Locke * , que um dia estaríamos a discutir as laranjas do sr. António.

* Concerning Civil Government, capítulo v, Of Property

2 comentários:

  1. Inclino-me muito para crer que a "posse da propriedade",não é tão certo quanto se pensa,olhe os clientes dos BPP, e certamente que é passageira.Pergunte nos cemitérios!
    Locke,começou por pensar nas laranjas de um qualquer Anthony!

    Abexim

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  2. E que bela sombra eles davam em tempos, e que bela sombra continuam a dar...
    O tempo é imutável, connosco a observar apenas, a esperar, e a desejar, para depois realmente sentirmos que somos a peça mais efémera da Máquina do Mundo.
    Todos queremos possuir algo, deixar o nosso nome impresso em algo que pelo menos por três gerações ou quatro, continue cá, para relembrar aos nossos quem fomos.

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