agosto 24, 2015

Quem são os judeus?




Quando a professora de Moral me pediu o caderno para mostrar o que eu tinha escrito sobre Abraão e o sacrifício do filho Isaac, ainda a palavra judeu não passava da menção de uma origem, alguém que era de um sítio do mundo. Não fazia ideia que Abraão tivesse sido judeu. Para me confundir já me bastava o complexo catequético, não havia Judeus na Bíblia, a Bíblia era dos Católicos. Sobre estórias bíblicas sabíamos muito pouco, o que os padres diziam é que interessava. 
Estava eu na fase de deixar de ir à missa da igreja de S. Domingos, ao Domingo de manhã, com aqueles catequistas de olhar sórdido, a gostarem de dançar no escuro, dos padres a perguntar na confissão – e houve beijos, houve beijos; da menstruação a aparecer e nós ajoelhadas, «postergadas».    - Não, isso eram as freiras no hábito branco sujo, deitadas no chão da capela, a lamber o chão… e eu sem perceber nada. Não imaginava que Abraão tivesse sido o pai do Judaísmo, só muito mais tarde ouvi falar das «Religiões do Livro». 
A primeira vez que pressenti o conceito de «judeu» terá sido nesse verão. O Diário de Anne Frank, o livro que mais me impressionara nos doze anos que levava de vida .  Até ali, Sindbad O Marinheiro e poucos mais.

 Mas Anne Frank, uma rapariga da minha idade, tinha passado o que vi descrito pela própria, precisamente na fase em que, também eu, vivia a confusão da pré adolescência, os entusiasmos, as paixões pelo vizinho de baixo, pelo outro do lado, ou por um rapaz da minha rua que telefonava lá para casa a convidar-me para saídas a que nunca tive coragem de comparecer e a quem eu respondia sempre que sim, que ia descer. Nunca desci, nem pensar em falar com ele «ao vivo e a cores». O Jorge, mais tarde «o gordo», tinha passado para o 3º ano com média de 11… fraquito, não acham? A carta de amor que me mandara, em papel de seda cor- de-rosa, li-a milhares de vezes, ainda deve andar por aí, dentro de algum «diário». Imaginem o ridículo, "o meu coração palpita", nem vos conto como “o quê”. Mas valeu. Apesar dos despiques da minha irmãzita, cheia de raiva por não ter sido ela a escolhida, sobretudo porque aquilo dava nas vistas – o emissário, aliás a emissária, tinha sido uma prima nossa que, claro, não fizera segredo da paixão. Pelo menos aprendi que a maior parte das mulheres detesta ser ignorada –  nem que seja por um desgraçado sem ideias.

Vejam bem, não há meio de chegar à minha primeira relação com o Judaísmo… A culpa de nostalgias destas é da Clara Ferreira Alves, que publica há tempos no Expresso uma conversa com David Grossman – vale a pena ler. «Um escritor é alguém que tenta inscrever a sua narrativa pessoal, na narrativa mais vasta do mundo, a paisagem humana», palavras com que  CFA introduz uma das questões. Ela quer saber se David se dá conta de que a história pessoal dele se transforma numa parte da explicação universal para o que significa ser humano. David Grossman responde:


«… descobri há muito tempo que escrevo para compreender o que me acontece (…). Nós, os escritores, não somos historiadores, não escrevemos sobre os grandes processos históricos da Humanidade. Escrevemos sobre o modo como esses processos afectam um indivíduo ou dois.» 


E é precisamente  por ter lido Anne Frank, que não posso deixar de concordar com Grossman.

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