setembro 25, 2012

joao rebocho pais /o intrínseco de manolo




Portugal, esta pequena aldeia em que se tomam as aparências pela realidade. A vida de cada vizinho, do outro, é sempre um exemplo do que está mal em contradição com aquilo que eu faço, não assumido e tanta vez escondido.

 Rouba-se , mente-se, preverte-se,mas  ninguém é pecador, a não ser o outro.  Cá eu nem pensar, os outros ,sim. 

  Arnaldo passa por ser um senhor,   Manolo por ser corno. Idalina assume a sua escolha  – "Era  porca e pronto. Que se lixasse que se fodesse, que fosse morrer longe a cambada que por  ali crescia como ervas daninhas, a chusma de amorfos feito gente, a manada de falsas puritanas."

Se algum de nós tivesse o poder do narrador, de espreitar verdadeiramente a realidade, seríamos mais capazes de interromper as deliciosas histórias de intriga que nos contam com um  não é bem assim, sabe-se lá se, e até de nos olharmos ao espelho da verdade.

Ninguém é tão magnificamente mau nem maravilhosamente bom. Há sempre um outro lado das coisas. Julgamentos precipitados divertem-nos, à mesa da tasca do Toino ou em assembleias bem frequentadas .

E se há uma moral nesta história, que se conta com toda a ironia e ternura e que amiúde nos é servida em pratos nojentos picados por varejeiras ou cheiro a esgoto de latrina mal-cheirosa, é que nada é o que parece. Todos temos um íntrinseco. E muito poucos lá chegam.

Um hiper-realismo mesclado de apelo melancólico à natureza, seja esta  a azinheira ou a paisagem humana. Num estilo muito apelativo pelas emoções e sensações que provocam no leitor, da nostalgia à repulsa, ao vómito, ao riso e ao sorriso, que remete para o surreal ou  mesmo a estéticas  a que alguns chamariam “da crueldade”. 

Fiquei fã.

setembro 13, 2012

país possivel, ruy belo

(...) Pedra a pedra construo o meu poema
      e é nele que dos dias me defendo (...)

           in,PAÍS POSSÍVEL,RUY BELO,

 Das nossas defesas para tempos difíceis, cada um tem a sua.

Eu gosto de chorar, mas não gostam que eu chore. Por isso vou ver o mar, comer um pastel de nata, revisitar palavras de poetas , ou o quadro do mário eloy, o da brasileira.Aos  poetas não os incomodam as minhas lágrimas , choramos mutuamente. 

Esta manhã , à procura da resposta para a pergunta de ruy belo -Serão tristes as oliveiras?   deparo-me com  Pequena História Trágico- Terrestre em PAÍS POSSÍVEL, o livro possivel, neste momento, (...) segundo a  nota do autor que antecede o poema . 

 Nessa nota ,entre outras idéias igualmente relevantes - diria mesmo , tocantes , até   pelo   acaso que  nos leva a deparar hoje com uma actualidade  escrita  antes de abril -  lamenta ele, ele que deve à vida uma gramática da dor , que  pensar seja realmente um perigo. 

( ...) Pensar, pensar como um homem que nasceu livre e quer morrer livre, leva depois inevitavelmente a actuar, a lutar contra qualquer forma de opressão.


Como muitos de nós também ruy belo se sente de  uma geração perdida e, como muitos de nós sugere.

(...)
Saia das nossas mãos inúmeras se não/
já a revolução uma atitude ou maldição/
ou de contrário a demissão da qualidade de país /
(...)     


Há poetas para os quais devemos recorrer a todas as lentesdeler olhar para lá dos nossos olhos, dia após dia.

Não acham?


setembro 08, 2012

a propos de um pequeno parágrafo de um discurso demagógico antes do futebol


Não se pode eleger o desemprego como a nossa maior ameaça económica e social e depois hesitar naquela que é uma das poucas ou mesmo a única medida que oferece garantias de a combater decisivamente. E por isso vos peço: não acreditem nas pequenas soluções, nas soluções indolores, para os nossos problemas mais graves. Não se deixem tomar pela complacência de quem pensa que temos todo o tempo do mundo, ou de quem defende que já fizemos tudo o que era necessário para vencer a crise e que agora deverão ser os outros a fazer o resto. O que precisamos de fazer para reganhar a nossa autonomia. (pb )



Senhor primeiro ministro, não acredite em pequenas soluções, nas soluções indolores, que são as que agradam aos bancos e ao capital.

Não se deixe tomar pela complacência de quem pensa que tem todo o tempo do mundo, ou de quem defende que em primeiro lugar temos de atacar os mais fracos, os trabalhadores,  reduzir o custo do trabalho. Estamos cada vez mais perto do dia em que como o senhor e os seus capangas temem, deverão ser os outros, ( aqueles a quem confiámos as  parcas economias que íamos arrecadando à custa do nosso  trabalho e a quem pagámos contribuições durante toda a vida) a fazer o resto”.

Porque é que o senhor descobriu tão rapidamente novas ( ?) soluções  que baixam  o custo  do nosso trabalho e deixa para depois incomodar as verdadeiras sedes da especulação financeira, os muito ricos, os dos vencimentos  milionários ?

Não, o senhor não tem medo dos tubarões, dos outros, está é à espera que eles, sim, tenham tempo para continuar a colocar o que roubaram ao país nos sítios que o Senhor sabe, longe de poderem ser apanhados com sacas de dinheiro na mala do carro. Que ,isto aqui, Portugal, o nosso querido Portugal , não é um filme de gangsters. Era o que faltava, não era, senhor primeiro  ministro?

 by, madame quousque tandem