fevereiro 25, 2012

penso, logo ...?


Quantas vezes pensamos descobrir a pólvora. E no fim de contas o nosso discurso não terá passado do inevitável conjunto de palavras que substanciam uma ideia mil vezes experimentada. Somos aquele grande animal vivo que respira em uníssono no mundo inteiro, uma ínfima parte de um máximo todo. O mundo inteiro – conhecido e desconhecido, não só toda a terra , a lua , as estrelas e os astros , o todo que nem nos é dado imaginar. E aquilo que eu penso, penso, logo crio, não é mais do que um sopro dessa enorme respiração.

 Sou uma parte de um todo ou um simples bafo desse todo que não  se pronunciaria jamais sem tudo o que o rodeia, mesmo não o olhando, pressentindo, ou sequer julgando. 

Se estás assim contido nesse todo universal, se não és deus, onde está a tua identidade? Quem és tu? Não passas de um reflexo. Não és mais que uma ilusão, um palhaço de ti próprio.
 
Por isso é tão doce morrer no mar ou deixares que o teu corpo se enterre na terra quente que se abre para ti, no teu útero primordial.

fevereiro 15, 2012

virginia woolf, as ondas


No outro procuras o que  não és. Na verdade, tu não existes sem o outro, a tal luz que te ilumina, sou eu.

Por isso também eu te escolho a ti, Bernard, o que junta frases, o da melancolia que conta histórias. Tu, que sentes o corpo atravessado por estranhas oscilações e vibrações de simpatia que te convidam a abraçar estes rebanhos humanos.

A ti, que conheces vagamente toda a gente e não conheces ninguém , preocupa-te sobretudo a rapariga que nesta rua lateral espera alguém. Por quem espera ela? E indagas num discreto murmúrio, por que há mulheres a jantar sozinhas. Quem são elas e o que as terá trazido aqui esta noite. Quem são esses desconhecidos?

Por isso eu te escolho Bernard, também eu procuro em ti o que não sou, para perceber o meu lugar na luz.

 E  dependo das  palavras, como  uma  maldição. “ Se ao menos tivesse nascido sem saber que uma frase se segue a outra frase, talvez tivesse conseguido ser alguém “ .É isso , Bernard , “ Quando não vejo as palavras enrolando-se à minha volta como anéis de fumo, mergulho nas trevas e não sou nada. “(pg 106).

fevereiro 12, 2012

Carla Pires, palavras soltas, e o terreiro do povo.

Acompanhei o povo percorrendo as ruas da baixa de Lisboa. O povo gelado e o terreiro também. Estaríamos mortos?

Ali estava a geração anterior e a anterior àquela, os que teimam em não se esquecer do fascismo e ficam ali parados. As palavras de ordem do costume, fmi, não manda aqui, aumento de salários, e outros clichés irrealistas. 

Não havia palavra de ordem para mim. Por isso não gritei, não desabafei, não catarseei, não me batam os puristas, por favor, que já me chegou de violência, à tarde e ao jantar – tive de ouvir, da boca de um jovem amigo, que a uma mulher grávida se não devia oferecer um lugar de substituição numa escola, uma vez que ela era muito capaz de meter baixa logo a seguir. Que se fosse numa empresa privada essa mulher nunca seria aceite. 

E eu que já tinha ficado deprimida com a marcha da tarde, a andar para trás no tempo, o tempo em que os homens passavam à frente das mulheres, mesmo das que obtinham melhor avaliação que eles – por direito, escrito nas leis deles – ainda titubeei, com o apoio de uma única rapariguinha, palavras vãs.

Mas hoje de manhã percebo tudo, o retrocesso – o saudoso caminho de muitos, em direcção à pátria antiga, ao sítio de que só ouviram falar e não viveram, o quarto escuro do fascismo.

 Cheguei a pensar que a palavra de ordem que me faltava era Portugal fora do euro,, bem vejo que não há palavra de ordem que dê para isto tudo, que não passo de uma mulher, dessas mulheres que me cantava Carla Pires, logo de manhã, de palavras soltas, simples palavras ditas na boca de uma mulher. Ainda bem que apareceu hoje para o pequeno-almoço, Carla, tive muito prazer em conhecê-la.