maio 25, 2011

"Me gustas democracia, pero estás como ausente"

Não há inevitabilidades?

Para isso devíamos ocupar hoje as principais praças da cidade com sessões contínuas - do Michael Mooore à Susana Sousa Dias. Nos intervalos pensava-se sobre o assunto. Fellini, Wim Wenders, Pina Bausch, toda a arte refere o poder , mesmo quando não quer.

No dia D saberemos qual será o ícone da nossa inevitabilidade, se Passos se Sócrates. Em termos práticos, ambos aplicarão o que já está pensado e registado, um com uma capa de autoridade e de socialismo, o outro nem por isso, mais bebé-chorão, menos pinóquio. Mas quer um quer outro não evitarão a derrocada do estado social, como eles dizem, nada farão para que não sejam os pobres a pagar a crise, muito menos serão capazes de incomodar os instalados srs. da alta finança.  

 
Não há inevitabilidades? A ver vamos.

Público - "Me gustas democracia, pero estás como ausente"

maio 17, 2011

“ Só poetas do Concelho” na Galeria Verney.

Quando crescer quero ser como tu, Maria Aguiar. Pasmo . Tanto prazer de viver nesta menina de entas e alguns anos. Fugas de melancolia no olhar. Vou ali às vezes aos fins de tarde, menos pelos poemas, mais pelas personagens, o espectáculo das pessoas é o que me enternece.

Desta vez contaram-nos , com muito espírito , que ao grupo tinha sido proposto construírem um poema sobre a primavera. Ora parece que o nosso amigo Quilhosa Balsas , desagradado do lugar comum de tantos poemas sobre florzinhas e quejandos clichés , se tinha rebelado, nascendo assim o poema que vai dizer - À Primavera , sim, mas dito - À prima Vera.
Todo o charme de um homem de cabelo branco, figura poderosa, se levantou e se dirigiu à assistência. Rezava o tal poema que a prima que preenchera os sonhos eróticos do autor, poderia ter sido levada à certa, não fora o incómodo da rima constante do atchim, que se pôs a rimar ora com um passeio pelo jardim ,ora com as flores do camarim coibindo a paixão arrebatadora, do princípio ao fim do auspicioso encontro… Provavelmente os plátanos, este manto fofo e voador que nos atazana as primaveras pelas ruas de Oeiras a impedir-nos voos mais altos, gorando, claro está , toda e qualquer mal intencionada aproximação à nossa prima Vera.
Segundo o galante diseur, Manuel de Andrade, parece não se ter cumprido o ditado “ quanto mais prima, mais se lhe arrima” mas a rima terá valido a pena. Não acham?


Primavera

Ah a Primavera?
Oh! Se a conheci!
Andava eu por aí
Quando então a conheci.
Era uma elegante senhora
Foi uma paixão arrebatadora!
Mas quando passeámos num jardim,
Não sei o que me deu em mim,
Fechei os os olhos sem querer,
E explodi,
Atchim! Atchim! Atchim!

Fomos então ao teatro
e sem grande aparato escolhemos um bom lugar.
A peça era interessante
e a companhia exuberante.
Mas quando trouxeram flores no fim,
Não sei o que me deu em mim,
Fechei os olhos, sem querer,
E explodi,
Atchim, Atchim, Atchim


Em seguida uma ópera aconteceu
e a primavera enalteceu
A escolha acertada.
Com o traje bem a rigor
Lá fomos ao esplendor
Duma sala aprimorada.
No fim prá “prima donna”
Que já era bem uma matrona
Encheram de flores o camarim
Não sei o que me deu em mim,
Fechei os olhos sem querer
E explodi:
Atchim! Atchim! Atchim!

Fui então ao doutor
e queixei-me deste horror
do… atchim
Disse-me ele com certo ar de abandono
- Escolha para si o Outono
E como um burro que zurra grite :
Urra! Urra! Urra!

Quilhosa Balsas

maio 13, 2011

a raça médicos poetas


 É do Miguel Esteves Cardoso a frase que involuntariamente me veio à cabeça.

 Não é que vou aqui fazer um examezinho de rotina, a uma clínica perto de mim pertencente ao grupo BES, e me apresentam um inquérito sobre o meu estado de saúde, antecedentes familiares de cancro de diversos tipos – procedimentos normais, imagino, estatísticas para a prevenção, a minha própria e a de outras pessoas.
Entrego a dita ficha informativa e sou chamada logo de seguida pela solícita recepcionista – a senhora esqueceu-se aqui desta parte. Nada de anormal, sem a minha falta de atenção não era eu. Nome, idade, tinham ficado para trás. Qual não é o meu espanto quando na última linha da “identificação pessoal” só tenho duas hipóteses: Caucasiana ou Negra, para preencher o item da raça, pois claro. Nunca mais tinha visto uma ficha assim, desde o tempo do fascismo. Digo em voz alta. É que me passei para aquela manhã de 1970 nos serviços médicos universitários em frente a um papel azul esverdeado. Reflexo condicionado. A rapariguinha da Clínica do Parque dos Poetas está-se completamente nas tintas para o meu reflexo, sabe lá ela o que era o fascismo. Isto deve ter alguma razão médica, para avaliarem se há mais cancro nas pretas que nas brancas. O benefício da dúvida. Cala-te, não faças escândalo. A minha raça? Nem consta. Devia ter escrito humana, dizem-me depois. Serei eu arraçada? Putas das mamas – é esta a frase de O Público.

maio 04, 2011

da ilha dos escravos


A mestiçagem, o estar entre o negro e o branco. A natural nudez.

O caldo húmido, viscoso da Ilha, o verde na luz e nas sombras naquilo a que a autora chama selva. Para mim a selva seria maior, como a outra África que conheci, Moçambique, uma manhã para chegar ao Xai-Xai, levantar de noite para ir a uma quinta ali ao lado. 

Em S. Tomé tudo era perto, uma pequena ilha. As roças aonde só se chegava de jipe e nos íamos abastecer de legumes, o Zé Manel a distribuir cigarros pelos santomenses, o que eu achava degradante.

Mas a leitura deste romance histórico não suscita apenas recordações nostálgicas de quem por África  passou um pedaço da juventude e sentiu o corpo extenso , denso na paisagem,os estados de alma fluindo nas limpas águas das ribeiras, no entornar da cascata, de quem se espera um estralhaçar ensurdecedor e acaba num contido murmúrio de águas. Que fale mais devagar, não vá o menino acordar. Cabem aqui todas as lembranças, para que não se apague da memória – o fim da tarde à beira mar, o perfil elástico dos pescadores,vozes quentes no crepúsculo africano; as mulheres jovens na amurada da praia, o Pantufo, numa meditação profunda, talvez rezando sem o saber, silêncios respeitáveis, a consonância.

Não é possível confundir um texto com o que lá está.Só. É pelos meus olhos que lá vou. E irei hoje por um caminho diferente do de amanhã ou de há anos atrás. Não sei se lhe deva pedir licença, mas o texto que você produziu, agora é meu, não nos livramos disso. Como se eu bebesse a tal água da cascata, ela passasse suave pela minha garganta, me arrefecesse o estômago e se diluísse nos meus fluidos.