janeiro 31, 2011
a porta
Enquanto ando por aqui a tentar decidir o que sentirá cremilde, a jovem católica e provinciana dos anos setenta,invejo-a por não ter que se confrontar com as dúvidas e as paixões que nos habitam.
Que pensaria cremilde se a frase de Mia Couto "quando o luxo escandaloso se encosta na miséria " lhe saltasse ao caminho , inevitável, ao olhar as fotos que o New York Times publica aqui? Teria tambem ela fugido para a porta do paraíso e pedido ao marulhar das ondas, que não eram do Nilo, "talk to me"?
janeiro 24, 2011
I have a dream
Ontem por volta das 2 da madrugada .
Um grupo de jovens move-se em coreografias acrobáticas nas arcadas do terreiro do paço. É prá aquecer, gritam uns aos outros. E a violência dos movimentos acompanha os tambores na noite lisboeta de um rap encapuçado de todas as cores .
Aqui ficam algumas rimas que consegui recolher , entre outras perdidas nos nevoeiros do bafo quente das bocas , escorridas no passeio .
aproveita esta derrota
e trata de perceber
pra onde vai o teu dinheiro
é o que tens que saber
500 euros por mês
mal dão para comer
quanto mais dar de mamar
a estes gajos do poder
aproveita esta derrota
e vê a constituição
onde estão os teus poderes
escondidos pelas palavras
abstenção vale nada
aproveita esta derrota
vai à luta , vai à praça
nunca mais fiques em casa
enquanto te vão ao bolso
compras pão pagas imposto
compras leite a mesma coisa
e o que pagas a mais
é pra engordar os pançudos
que fazem leis à maneira
pra te roubar sempre mais
´tás lixado, ´tás f*
se não pões as mãos à obra
vão te roubar sempre mais
é no ensino privado
pra ensinar aos meninos
os pecados das igrejas
coitadinhos dos pobrezinhos
a gente dá uma esmola
não parece mal a deus
e eles ficam quietinhos
são taxas para a doença
pagas sempre duas vezes
tiram-te no ordenado
e no centro de saúde
tiram-te no ordenado
e no xarope prá tosse
pra te manters caladinho
dão-te prémios na tv
contam-te histórias de amor
há sempre mais uma dor
pr’aguentar o povinho
aproveita companheiro
aproveita esta derrota
já vejo terras de espanha
areias de portugal
acima acima gajeiro
acima ao mastro real
Como é que se chama esta cantiga? Rap do derrotado, asseguram. Despeço-me que se faz tarde ,mas continuo a ouvir ao longe, no eco dos mármores antigos, junto ao rio, esta espécie de cantiga ao desafio , um tiro no cachaço a rimar com do muro abaixo ... frescuras da juventude.
* censurado
janeiro 18, 2011
mais do mesmo
Adivinham alguns peritos que dentro de dias tudo voltará ao normal.
Cavaco Silva voltará a ser o Presidente de todos os Portugueses.
Cavaco voltará a não ter opinião.
A Cavaco não lhe competirá manifestar-se.
Cavaco voltará a nunca se enganar.
Cavaco olhará à sua volta e verificará que ninguém tornou a nascer, nem uma vez, quanto mais duas , mais honesto do que ele.
Cavaco tornará a aparecer na televisão e anunciará ser o garante da democracia, o presidente de todos os portugueses.
Cavaco não fará qualquer operação plástica, pelo que será mais uma vez igual a si próprio.
Os amigos de Cavaco ficarão contentes e descansados. Os inimigos também.
Ninguém se levantará do chão, nem aquele poeta timorense que disse que nunca se calaria quando lhe pediam um minuto de silêncio pela sua terra.
Cavaco não pedirá nenhum minuto de silêncio por esta pátria, até porque ela, há muito que está silenciada. O silêncio dos bem- instalados, dos filhos dos bem- instalados. O silêncio dos que foram formatados pelos bem–instalados a não se manifestarem para que os bem- instalados permaneçam instalados. E esta permanência agradará a todos. E será uma permanência ainda mais viscosa do que a de hoje. Nela nos moveremos pegajosamente, gelatinamente incapazes.
Eu sei que um presidente, qualquer que ele seja, não passa de um presidente.
Eu sei que Cavaco Silva podia não voltar a ser eleito, ir para casa descansar, dedicar-se à família, ajudar alguns pobres e outros não , ele lá sabe por quê , começar a pensar numa estátua em Boliqueime, e deixar-nos a todos em paz. Podia... e não era a mesma coisa.
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