dezembro 27, 2010

O que é um comunista explicado aos meus netos

Parece que já nada nos surpreende, os natais, os petiscos, a doçaria conventual. De repente, entre o cabrito e a sobremesa é se apanhado pela pergunta do mais novo do grupo, o Francisco – o que é um comunista?

Lembro-me logo de Jesus Cristo, o Jesus da infância, o tal que era judeu mas que os padres não gostavam que se dissesse. O tal perseguido por um Herodes malvado ainda antes de nascer. O Jesus -herói defensor dos que não tinham casa, não tinham pão, dos doentes, das mulheres-de-má-vida. O tal por causa de quem eu teria arriscado ir para as missões, me predispunha a jejuar, a ir para o convento. Aquele para cuja existência eu pedia explicações, para quem eu pretendia uma elevação toda especial, por culpa de quem me zanguei com todos os padres, que cedo entendi que nada tinham que ver com Cristo – discriminavam como ninguém, socialmente, quem era pobre – os pobres só serviam como termo de comparação, uma espécie de aviso – se não te portas bem o senhor castiga, nós temos, mas eles só terão um bocadinho do que nós não quisermos; quem era preto, cigano, diferente; quem era mulher – as irmãs eram consideradas burras, umas coitadinhas, os padres eram inteligentes; quer uns quer outros, pecadores, mas aos homens perdoavam a fraqueza da carne, a elas, nem o direito ao prazer, nem a dúvidas sobre o estado das coisas. 

Jesus amou a paz, não a guerra santa. Amou a vida e a liberdade, provavelmente não se importaria que chamassem “ aquele que não tem nome”, Alá ou deus Su  ao que dizem que era o pai dele.

Será um comunista um ser que deseja viver em comunidade - de todos tudo o que existe,incluindo o céu e a terra ? Apetecia-me ir à palavra comum e ligá-la talvez a bem- comum, mas arrastava com ela o mal-comum. 

  Um comunista, Francisco, o equívoco mais perto de Jesus Cristo que conheci. Também ele promete o paraíso, mas ainda nesta vida. Para acreditar nisto, é pois necessário ter muita fé. Ninguém conheceu nunca nenhum comunista que o tivesse conseguido; que, como qualquer bom cristão ,se não tivesse conspurcado de más práticas com a desculpa de que os meios justificam os fins. 

Quem sabe não te caberá a ti um dia  perseguir a utopia? 

  
                                                                           


dezembro 22, 2010

camus e as escolhas

                                                  In, O silêncio dos Livros



Ora vá-se lá saber , porquê um livro e não outro.

Sou daquelas que gosta de ser apanhada de surpresa por um filme ou um autor. Foi o que me aconteceu com Camus, de quem tinha envirginado, por falta de memória, de cuja obra ,O Estrangeiro, nada mais que o título e uma certa idéia de solidão ,me restava. Impressão provavelmente nada real, ainda menos ciêntífica, uma dessas mastigações da memória que cuspimos de vez em quando.

O que me levou a pegar em O Primeiro Homem, foi, a bem da verdade, o título,que me fez recordar uma pergunta da minha filha, já mais que farta de ouvir a mãe berrar em cima de um texto de Artaud,  enquanto se fazia o jantar - Oh, mãe mas afinal quem é o primeiro homem, questionava ela a hipótese de um primeiro homem, antes de uma primeira mãe, vejam como continuam irresolúveis as nossas perguntas da infância. As cozinhas sempre foram grandes escolas de vida.
 Seduziu-me, além do mais, o ter constatado que se tratava de uma obra, cujo texto fora estabelecido com base no manuscrito encontrado na sacola do autor em 1960, só publicado em 1994, 34 anos depois da sua morte. “A obra em que Albert Camus trabalhava no momento da sua morte”,leio na contra-capa. A reprodução de alguns manuscritos cheios de notas à margem, é a cereja em cima do bolo a que não consigo resistir – Eu ia portanto desvendar o fascinante mistério: o que está por detrás do texto, todo o trabalho de escrever e reescrever, os planos e notas que edificam a estrutura da obra, o segredo, a fórmula da aceitação e do sucesso. E observo - olha, ele aqui teve dúvidas; mais à frente uma anotação – "voltar aqui" - ele deve pensar que às vezes não consegue acompanhar a torrente do pensamento, as associações associadas, as imagens, as emoções que o assaltam quando escreve.
Mas fiquei presa, mais do que a essa descoberta ou procura, a tudo o resto, porque é que não lhe quero chamar narrativa? Porque esta palavra não serve, é curta para o sofrimento, para a raiva e as lágrimas  do jovem Jacques que nos impelem por aquela leitura adiante, por esse rio acima, e deixamos para mais tarde os Anexos, os Folhetos e as Cartas. 

As armadilhas das palavras, dos sentidos.



dezembro 19, 2010

que calor na blogosfera!





N'avenida marginal
Nun luar di madrugada
Uns ta brinká no Sotá
Otes ta brinká mae má pai
Oi k'sabura ta brinká na mei di kriola
Nun silensie di madrugada
T'uvi mar skebrá n'areia
V'nida marjinal é k'ta na moda
V'nida marjinal é k'ta morrê pêxe
Ô Djack, ben nese kalor di madrugada
Ben nese kalor nô ta pasá sábe



(Manel D'Novas)







dezembro 11, 2010

mudar o mundo

Esta é a hora de nós, o cidadão comum , fazermos o trabalho de casa. Longe vão os tempos das sebentas decoradas sem critério, com o único objectivo de agradar ao Professor ; distantes os dias em que quem procurasse fontes alternativas era prejudicado na nota do exame por ter tido essa ousadia ; a milhas, as manhãs em que acordávamos bem cedo para aprender na ponta da língua a lista dos reis de Portugal , ou dos pecados mortais.

Hoje é fundamental consultar as mais diversas fontes para poder formar uma opinião criteriosa, não papagueada . O leitor quer ser informado, não catequizado. O leitor quer perceber – quem é este Assange? Por que raio é que dele só se sabe que será um alegado violador? Porque é que desconfio deste José Manuel Fernandes? Uma no cravo outra na ferradura? Pois, se eu fosse jornalista também andava à nora, que eles também comem. E porque é que o capital, expressão ultrapassada e estalinista, lá estão alguns dos meus amigos a vociferar, não gosta mesmo nada desse tal Assange? Mudar o mundo pela comunicação e não pela revolução? Boa! Diz aqui o Cintra Torres! Mas esse não é crítico de tv? Não interessa quem é quê. - Já se viu que pela revolução tradicional não se chega a parte nenhuma. Revolução tradicional? Estás-te a passar? Lá estão vocês a pôr tudo no mesmo saco! Seus anarquistas! ( que é uma classificação que hoje em dia se utiliza quando se quer insultar alguém e meter medo ao resto do mundo).


Para o infinito e mais além! -Gritava o desenho animado nos écrans !