Rescaldo das eleições portuguesas
28 Setembro 2009 11:31 — por jpt em Banda Desenhada, Politica Portuguesa
28 Setembro 2009 11:31 — por jpt em Banda Desenhada, Politica Portuguesa
No início da II Guerra Mundial, depois do ataque a Pearl Harbor, assistimos à perseguição, nos Estados Unidos, de cidadãos Americanos de origem Japonesa e ao afastamento compulsivo de famílias enviadas para “campos de internamento”.
Foi o que aconteceu aos avós da autora de “ Quando o Imperador Era Divino “, Julie Otsuka, episódio que a inspirou na feitura do seu primeiro romance.
Trata-se de um livro quase acidental. Comecei por pensar nele como uma história sobre as personagens, não propriamente uma história sobre Nipo-americanos durante a II Guerra Mundial. Refere em entrevista a Kellie Kawano.
Como as crianças percepcionam esta fase da sua vida em que de repente tudo fica para trás, pai, casa, escola, amigos. Como não hesitamos em votar ao ostracismo grupos ou indivíduos que classificamos como “o inimigo”. O que te pode acontecer se deixares de ser politicamente correcto ou como passar a ser persona non grata de um dia para o outro. O ponto de vista de dois irmãos, a quem os colegas de escola evitam, a crueldade inocente do mundo infantil.
Bill Robinson considera que o romance perde alguma força, sobretudo no último capítulo, quando Julie Otsuka se deixa levar e não resiste a pôr em causa a sociedade americana, denunciando o sentimento anti-japonês que grassava na América do Norte.
De facto devemos deixar-nos levar por algumas denúncias. Não se trata de ser ou não ser anti--americano, mas anti-comportamentos discriminatórios ou de injustiça que todos nós, em pânico, somos capazes de manifestar, sobretudo em cenários de guerra, quer no campo de batalha quer na retaguarda.
Os japoneses na América da II guerra mundial, os judeus, alemães, e não só, de todos os tempos e lugares, os muçulmanos de hoje ou amanhã, quem sabe quando chegará a tua vez, como lembra Brecht.
E porque também nós tivemos a nossa guerra, os nossos escravos, esse caminho longo para S.Tomé, que nos canta tão eloquentemente Cesária Évora, convém não esquecer as palavras de Julie Otsuka:
“ A Guerra foi um episódio devastador para todos os daquela geração. E penso que a tarefa principal, depois da guerra, consistiu em prosseguir a sua vida, sem se ficar pela dor ou a perda.”
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Frank
Escusavas de ter morrido quando eu ainda estava a meio do livro.
Não só as memórias de um professor, também as do escritor, receitas – com quanto sofrimento se cozinha um texto. Quantas madrugadas acordadas de palavras a gritar por serem escritas, todas as dúvidas do mundo, quanta gente, quantas vidas se misturam no papel.
Os teus alunos teacher man, os pais, as famílias cansadas de passados apertados de fome, a exigirem um futuro de comida certa para os filhos, sem desvios, longe das artes, coisa de gente com problemas, é doida escreve poemas, o meu filho, não, ele não vai andar pelo pão que o diabo amassou.
Because I can’t help it, a tua resposta à pergunta, porque escreve?
Os estudantes das tuas turmas “ difíceis” bebem-te as palavras, quando abordas a questão da maldição do que é escrever, a abençoada maldição, que não te larga, com a qual mal estás, e sem a qual pior ficas. Escolhes escrever e vais ser levado para câmaras de horrores: o mundo que lá está e que te arranha, a lucidez do espectáculo do quotidiano, que transportas para a escrita e te impede “de alguma vez te aborreceres num Sábado à noite”.
You are your material. Nothing human is alien to you. Dreaming, wishing, planning: it’s all writing, but the difference between you and the man on the street is that you are looking at it, friends, getting it set in your head, realizing the significance of the insignificant, getting it on paper. You might be in the throes of love or grief but you are ruthless in observation. You are your material. You are writers and one thing is certain: no matter what happens on Saturday night, you’ll never be bored again. Never. Nothing human is alien to you. (* pg 246). Lindo, não é?
N’As Cinzas de Ângela fizeste-nos chorar, nós que amamos a Irlanda e os Irlandeses, os leprechauns e as fadas, onde andavam elas nesse tempo, onde estava deus, quando bebias leite com sangue, quando recolhias pelas ruas geladas as cinzas que os outros deixavam cair?
E agora em Teacher Man, que vai sair traduzido em português por estes dias, falas do mundo inteiro, alunos à procura de um cartão de identidade, filhos de deserdados, emigrantes de todo o lado, como aqui, como o 11ºF.
Nós também nos divertíamos oh, se nos divertíamos!
Amin Mohamed Jinai! Gritava a professora e a turma rompia numa enorme gargalhada, pela entoação, pelo teatro e por te lembrares do nome completo. Manel Caxias, o livro que tinha pertencido ao tio, diga lá o que acha o seu tio, Manel? Outra gargalhada colectiva, eles sabiam que tu sabias .
I was already dreaming of a school where teachers were guides and mentors, not taskmakers. (* pg 24).
Estou a ouvi-los como se estivessem aqui,” Nããão setora, lá está a professora a exagerar…”
Momentos de tensão, com o Ivoniky a medir forças com a autoridade, ele, o presidente da associação de estudantes, e a rirmo-nos quando adivinhava a reacção da professora – aí vem, aí vem! E reprimias a tempo algum comentário mais ácido, que eles aguentavam , na maior, porque nos conhecíamos. Ivoniky, São -Tomense e Shaka Zulu da droga. Melissa, frágil, doente e pequenina Timorense, sempre junto da gorda despachada Soraia. Mr.Casaco, que ficou sem pai a meio do ano, e a mãe desamparada , e nós a vermos aquilo, uma pessoa por um filho faz tudo, aguenta reuniões de turma com setores, pró filho passar, pra ficar bem visto, mesmo com o coração a sangrar. Andreia, a negra enorme que me ofereceu pancada no 10º ano, acabámos amigas. A Vaz, com uma mãe em Londres, sempre patrocinada por uns namoraditos que a faziam chorar e a Maria, um pequeno problema, que lhe dava direito a psicólogo e a não fazer nenhum. Bárbara, “não fiz o trabalho, stora, tive de ir visitar o meu primo à prisão”. Carla Min, desculpas para tudo, atrasos, dores de barriga, desatenção, mas lá no bairro empenhada no serviço social, distribuía e tratava das roupas para os mais pobres que ela. E as outras duas mestiças, Cabo Verde, a Dulce e a Telma, uma linda e outra nem por isso, sempre cheias de toilettes e muito limpas, iam crescendo e nós facilmente ligávamos as más disposições a pílulas do dia seguinte, namoros acabados, olhos inchados naquela pronúncia crioula. A Katherine da Venezuela que acompanhava a Fabiana, de estudos redobrados na hora dos testes, que, ao fim e ao cabo, em terra de cegos quem tem um olho é rei.
Como tu, também nós fomos profs constrangidos, disfarçámos em visitas de estudo, tal pais envergonhados que não tivessem sabido dar educação aos filhos… também a nós se nos apertou o coração, que ainda caem do comboio, toda a gente a olhar e eles a fazer show, a abrir e a fechar portas, aterrorizados, acabou, não contem mais comigo pra estas fitas.
Mas o que trabalhavam quando o tema era a vida deles, culturas, famílias, repressão, liberdade! I wanted to be the Great Liberating Teacher...to breath the air of freedom (*pg 120), trabalhos de projecto à medida de cada um, power points, de Malcom X aos pastéis de Belém da Soraia, e tu pensavas, meu deus isto não tem qualidade nenhuma, e o Amin a fazer copy paste do Gandhi, com fotos do Taj Mahal.
Passou por ser também isto a leitura do romance Teacher Man – uma catarse recordatória.
A porra é ele ter morrido … pode ser que afinal vozes de burro cheguem ao céu.
*Frank McCourt, Teacher Man, ed. Harper Perennial, 2006
Ousadia de costumes.
1. Sedução.
Quando Judite se apercebeu que os habitantes de Betulia estavam prestes a render-se ao exército de Holofernes, general dos exércitos de Nabucodonosor, urdiu um plano, que manteve secreto, com um objectivo: salvar o povo de Israel. Planeou uma estratégia e uma táctica. O texto Bíblico não refere que ela tenha seguido as sugestões de deus, ele não lhe indicou os caminhos. Judite invocou-o e decidiu assassinar o general assírio.
“ Senhor Deus todo-poderoso, lançai agora um olhar sobre o empreendimento de minhas mãos, para a exaltação de Jerusalém!” (Judite, 13,4).
Para atingir o seu desígnio optou por utilizar a arma que possuía – a sedução inteligente.
“Quando Judite acabou de invocar o Deus de Israel (...) tirou o cilício de que estava recoberta, tirou os trajes de viúva (…) fez-se assim extremamente bela, a fim de seduzir os olhos dos homens que a vissem” (Judite 10,8).
Foi Judite que, através da palavra conseguiu convencer os assírios do seu juízo e ponderação, persuadiu Holofernes de que os judeus, durante o cerco, se tinham afastado da sua religião e que mereciam ser destruídos, induziu-os a pensar que, ela achava que o povo de Israel não deveria ter desagradado a Holofernes, razão pela qual se apresentava “ vencida” perante o general e no temor de deus, de quem os outros receberiam o castigo.
As palavras de Judite agradaram a Holofernes e a todos os oficiais; admiraram-lhe a sabedoria e disseram: “ De uma extremidade da terra a outra não há mulher como esta, de tão formoso semblante e ponderados propósitos.” (Judite 11,20e 21).
Conhecendo os homens, terá ela também adivinhado o diálogo de Holofernes e Bágoas?
Holofernes a Bágoas: “ …pois seria vergonha para nós deixar partir tal mulher sem entrar em relações com ela.” (Judite 11, 20 e 21).